A onda Bolsonaro é só a espuma da insatisfação social contra a elite política do país

por Carlos Castilho

São cada vez maiores os indícios de que a onda Bolsonaro é mais uma erupção do mesmo descontentamento político visto em 2002 e em 2013. Os pretextos variaram, o cenário também, mas o que voltou a manifestar-se é a insatisfação difusa de boa parte da população brasileira, especialmente a urbanizada, com relação ao divórcio crescente entre a elite política que governa o país e a sua base social.

Este descontentamento ultrapassa as fronteiras ideológicas, partidárias e até mesmo as estruturas sociais convencionais. É uma revolta contra um sistema de apartheid político formado por uma elite que se alterna no poder há décadas e a grande massa de cidadãos que são mantidos à margem das grandes decisões econômicas e sociais, sendo forçados a pagar o preço dos erros da classe dirigente.

Trata-se de uma revolta que confunde os analistas de plantão, especialmente a imprensa, porque o fenômeno não segue processos já conhecidos como a insurreição popular, quartelada militar, golpe parlamentar ou terrorismo. O tsunami da insatisfação não é marxista e nem nazista, não é petista e nem neofascista, porque já não é mais possível identificar as suas raízes através da limitada dicotomia entre comunismo e capitalismo.

Tem a ver com uma complexa conjugação de fatores onde há elementos de diversas ideologias, interesses econômicos, corporativismos partidários, mudanças em classes sociais e fenômenos conjunturais como a quebra generalizada de paradigmas, provocada pelas inovações tecnológicas. O grande desafio é destrinchar esta teia de complexidades, o que só é possível quando se consegue observar o que está acontecendo sem usar óculos com lente vermelha ou com lente verde amarela.

A diversidade e complexidade do descontentamento crescente na massa da população brasileira puderam ser observadas em 2002, quando o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores encarnaram o sentimento de renovação e de esperança alimentado por mais da metade do eleitorado brasileiro. É paradoxal, mas Lula e o PT foram os depositários, nas eleições de 2002 e 2006, das mesmas expectativas que hoje movem os eleitores a apostar num imprevisível Bolsonaro e no desconhecido Partido Social Liberal (PSL).


Manifestações de 2013 em Sao Paulo (fonte: foto Flickr / CC)

O PT e o nosso apartheid político

Os protestos de 2013 marcaram o primeiro grande sintoma da frustração popular em relação às esperanças depositadas no PT. O partido, que encarnou a expectativa pela mudança do apartheid político, acabou se envolvendo no jogo partidário e ficou igual a todos os demais. Isto decepcionou a classe media e forneceu o pretexto para que grupos conservadores canalizassem o descontentamento em seu proveito, usando como instrumento o combate à corrupção.

Em 2002, Lula e o PT vincularam a expectativa de mudanças no sistema político à campanha contra o conservadorismo, simbolizado no PSDB e seus aliados. Dezesseis anos mais tarde, ocorre o mesmo processo, só que com sinal invertido. É o ultraconservador Bolsonaro que se beneficia da esperança de novos tempos, ao culpar o esquerdismo por toda insatisfação popular gerada pela frustração do sonho petista.

Lula e Bolsonaro, cada um no seu tempo, foram outsiders no sistema político brasileiro, por isto encarnaram as expectativas de renovação. Ambos enfrentaram a desconfiança generalizada da elite empresarial. Em 2002, falou-se numa fuga em massa de empresários assustados com o possível socialismo petista. Em 2018, são os profissionais liberais pensando em emigrar para Portugal, Uruguai e até mesmo para o nordeste brasileiro, temendo o recrudescimento da xenofobia, machismo e racismo, bem como a violência social gerada pelo sectarismo político.

Aliás, diga-se de passagem, o descontentamento com o sistema político é um fenômeno internacional que está deixando perplexa a elite multinacional porque ela não consegue perceber que a maré conservadora em eleições é apenas um sintoma, um alerta, da inconformidade das pessoas com a forma pela qual estão sendo governadas.

Os novos líderes, em países como França, Itália, Hungria, Polônia, Filipinas e vários outros, têm pela frente a opção entre enveredar pelo autoritarismo para cumprir promessas eleitorais ou aderir ao sistema para sobreviver politicamente. Ambas as escolhas levam a um mesmo destino: mais uma frustração causada pela negação de que haja uma maior participação das pessoas na gestão pública.

O ódio e a intolerância como complicadores

Este exercício de contextualização histórica nos ajuda a ver que a onda Bolsonaro não é o fim dos tempos e nem o advento de um nirvana político/econômico. É apenas a manifestação de um fenômeno mais profundo que é a desilusão de boa parcela dos brasileiros com um sistema de representação popular que perdeu o significado democrático por conta do nosso apartheid político.

Isto nos ajuda também a perceber que alimentar o ódio ideológico e a intolerância social só complica o entendimento de que o grande desafio é mudar os nossos sistemas partidário e de governo para torna-los realmente representativos e participativos. Os xingamentos, agressões e mortes só aumentam a complexidade de um processo que já é, por natureza, extremamente complicado.

As divergências continuarão a existir porque ninguém consegue ser dono da verdade e capaz de dar, sozinho, a solução para a insatisfação popular. Mas os conflitos são inevitáveis e a violência é um dado de situação. A nossa preocupação é impedir que os antagonismos acabem ofuscando a necessidade de resolver o problema principal.

Publicado originalmente no Medium

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