notícias falsas

Além do fact checking

por Carlos Castilho

O esforço de jornalistas e pesquisadores do jornalismo em combater a proliferação das notícias falsas pela internet deu origem a um outro desafio também relacionado à qualidade da informação levada ao público. É a questão da idoneidade do discurso público, o principal condicionante na formação das opiniões e comportamentos das audiências dos veículos de comunicação.

notícias falsas

O discurso público é uma expressão genérica usada, principalmente por sociólogos, para definir o conjunto de mensagens produzidas e distribuídas por diferentes instituições, movimentos e comunidades sociais num determinado contexto social. O discurso público sobre combate à corrupção, aqui no Brasil, por exemplo, envolve o conjunto das ideias, posicionamentos e opiniões sobre as investigações da Lava Jato.

Para cada problema em discussão na imprensa e na sociedade existe um tipo de discurso público, dentro do qual algumas posições ganham mais importância que outras. A imprensa tem um papel determinante na definição das opiniões predominantes pelo simples fato de serem as mais divulgadas.

O conteúdo do discurso público é, por natureza, complexo, contraditório e multidisciplinar. A veracidade, objeto do fact checking é um dos seus componentes, mas não o único na determinação da confiabilidade de um dado, fato ou evento. Fatos considerados verdadeiros podem ser agrupados de forma a produzir um resultado não confiável.

Outro desafio é a falsificação de vídeos usando tecnologias sofisticadas, os chamados deepfakes, e que só podem identificados por técnicos capacitados. É o caso do vídeo que viralizou na internet com um pronunciamento falso do ex-presidente Barack Obama. Uma série de recursos altamente sofisticados foram usados para adulterar a voz, movimentos faciais e gestos para transmitir uma mensagem fora do contexto político do antecessor de Donald Trump. Veja e julgue (na segunda metade do vídeo é mostrada a voz do dublador e você pode acompanhar como foi obtida uma sincronia quase perfeita):

Diante de tantos complicadores, ganha corpo a proposta de desconstrução do discurso público como um elemento adicional na busca de um ambiente informativo menos sujeito à desinformação, na era digital. O termo desconstrução pode ser comparado ao ato de destrinchar interesses, motivações, estratégias e objetivos das principais propostas, percepções e opiniões dos envolvidos nos debates da agenda da imprensa.

O tema ainda está restrito a centros de pesquisas em jornalismo, como da Universidade de Lund, na Suécia, onde jornalistas, sociólogos e antropólogos testam técnicas de desconstrução de notícias com base nas teorias sobre análise de discurso, onde a principal referência é o pensador francês Michel Foucault. Uma primeira etapa no desenvolvimento do processo de desconstrução do discurso público é o que faz, por exemplo, o blog brasileiro Meio ao publicar lado a lado artigos de diferentes analistas políticos e econômicos, oferecendo aos leitores algumas das várias perspectivas integrantes do discurso público sobre eleições presidenciais, dar um exemplo atual.

Avalancha informativa

Nos anos 90, do século passado, o sociólogo italiano Alberto Menucci foi um dos primeiros a sugerir, em seu livro Challenging Codes, que a imprensa incluísse a desconstrução do discurso público entre suas funções prioritárias na era digital. Mas o próprio Menucci alertou que diante da fluidez e complexidade das informações na internet, seria impossível regulamentar e normatizar integralmente a atividade desconstrutora , o que tornaria indispensável uma parceria entre jornalistas e o público para filtrar e destrinchar a enorme quantidade de informações publicadas diariamente.

Um exemplo desta avalancha noticiosa contemporânea, foi dado pelo autor inglês Richard Wurman em seu livro Information Anxiety II, onde ele mostra que uma edição dominical do jornal The New York Times publica atualmente mais informações do que as disponíveis por um cidadão inglês, ao longo de toda a sua vida, no século XVII.

Já está provado que a isenção e objetividade absolutas não existem, porque qualquer ser humano tem uma percepção própria dos dados, fatos e eventos que o cercam. Assim, qualquer iniciativa de desconstrução do discurso público terá que tornar transparente o currículo, vínculos políticos, econômicos e profissionais dos jornalistas envolvidos no projeto.

Apesar de tudo isto, o jornalismo ainda é a atividade mais capacitada para promover, rotineiramente, a desconstrução do discurso público por sua longa experiência no trato com a informação. Como é inevitável o crescimento da demanda popular por dados que permitam chegar ao DNA das notícias, estão criadas as condições, a médio e longo prazo, para a sustentabilidade financeira de projetos voltados para a desconstrução do discurso público.

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