5 de outubro guerra de canudos

Canudos não se rende

O dia 5 de outubro data a queda do arraial de Canudos, no sertão da Bahia, sobre o qual Euclides da Cunha escreveria a tragédia inaugural da República brasileira e Cesar Zama desnudaria os fatores envolvidos para dizimar o povoado, erguido na fazenda abandonada de Garcia D’Ávila.

Se considerarmos as permanentes tentativas retrógadas frente ao avanço social no país, é correto afirmar o quanto a primeira crise da República está de volta. Canudos não se rende. O dramático extermínio da experiência pioneira de uma comunidade popular, sob o comando do beato Antônio Conselheiro, após rechaçar os ataques de três expedições do Exército, entre 1896 e 1897, levada a efeito pelo novo regime implantado no País, permanece irresolúvel na consciência dos brasileiros.

Com o relato de Euclides da Cunha, ao narrar parte de toda a epopeia em Os Sertões, sendo contestado em inúmeros aspectos por diversos autores, é inevitável compreender o quanto, antes, o Brasil era Canudos. Hoje, Canudos é o Brasil. O território, palco daquela aventura mística e bélica, permanece vivo na contemporaneidade, ainda que submerso para dar lugar ao açude de Cocorobó, em 1966.

5 de outubro guerra de canudos
Seguidores de Antônio Conselheiro capturados pelo governo nos últimos dias da guerra (fonte: wikipedia)

Os integrantes do Arraial de Canudos resistiram  até o dia 5 de outubro de 1897.

Quem quiser interpretar, à luz da história, a guerra travada em quatro intermitentes batalhas entre os seguidores do beato Antônio Conselheiro e os cinco mil soldados do Exército, precisará trazer à memória o mais sangrento dos conflitos já ocorridos no Brasil. Um episódio cujo paralelo histórico (e estético) é localizável em Guernica, cidade destruída por aviões alemães durante a guerra civil espanhola, 40 anos mais tarde, e que viria a ser uma das significativas obras do pintor Pablo Picasso.

Contudo, conforme o escritor César Zama, baiano de Caetité, nos permitiria salientar pelo artigo publicado no Diário da Bahia, em 1899, “a justiça estadual não se ocupava dos habitantes daquele arraial. Contra eles não havia instaurado processo algum. Nos cartórios do Estado nenhum deles tinha o seu nome no rol dos culpados. Nada de extraordinário se passava com relação a Antonio Conselheiro e aqueles que o acompanhavam”.

Ao denunciar o genocídio, Zama faz ver o quanto “ninguém ignora que gênero de vida levavam os canudenses: plantavam, colhiam, criavam, edificavam e rezavam. Rudes, ignorantes, fanáticos talvez pelo seu chefe, que reputavam santo, não se preocupavam absolutamente de política. Antonio Conselheiro, porém, confessava-se monarquista. Era seu direito, direito sagrado, que ninguém podia contestar em um regime republicano democrático. Não há ato algum por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir que ele tentasse contra o governo da República”.

As desobediências civis à cobrança de impostos e ao casamento civil instituído pela Constituição de 1891 faziam parte da sua pregação, iniciada por volta de 1870 ao promover mutirões para a construção de igrejas e cemitérios no interior do Nordeste. O atraso na entrega de madeira, adquirida em Juazeiro, para a construção de um templo no arraial, 26 anos depois, se converteria em revolta e no estopim para a mancha negra que se incrustaria na história republicana.

Em meio ao disparate da mobilização das forças expedicionárias para combater a crença e a fé de uma comunidade que compunha a segunda maior concentração populacional da Bahia, após a capital, com cerca de 25 mil habitantes, vale, ainda, registrar o episódio da rendição de milhares desses habitantes. A negociação coube ao braço direito de Conselheiro, o Beatinho.

Ergueu bandeira branca e dirigiu-se à negociação. Chegado à presença do general Arthur Oscar expôs-lhe o propósito: “venho declarar-vos que grande número de meus companheiros estão dispostos a render-se, contanto que V. Exa. lhes garanta a vida” foram a suma de suas palavras.

“Sob minha palavra de honra prometo que as suas vidas serão respeitadas: podem vir tranquilos.” Responde-lhe o chefe das forças legais. Mas o que ocorreria com a rendição, senão a degola de todos, homens, mulheres, crianças, para supor um heroísmo desmerecido? Sim, Canudos permanece vivo.

Jornalista com trajetória marcante nos principais jornais baianos como repórter e editor nas áreas de Cultura, Política, Economia e Internacional. Como assessor de Comunicação atuou nas duas primeiras campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, na Bahia, entre outros políticos e junto à iniciativa privada, em shopping centers e indústrias do Pólo Petroquímico. Como empresário, lançou diversos títulos e ganhou o prêmio Colunistas Brasil, em 1992, pelo ineditismo da “Revista do Carnaval”. Atualmente é repórter de Cidade, na Tribuna da Bahia e sócio-editor do jornal “Itapuã na Frente”.

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