Dois médicos loucos e a histérica

Para Cronenberg, o ser humano constitui-se basicamente de secreções e vísceras sob o comando de um cérebro perturbado. Esse todo esquisito sempre busca o sexo. Em seu mergulho nas origens da psicanálise, a personagem principal do novo filme do cineasta canadense, Um Método Perigoso, sofre de graves problemas sexuais e se contorce em caras e bocas em busca de ajuda.

A histérica aspirante à médica Sabina Spielrein, em ótima interpretação de Keira Knightley, sofreu abusos na infância e sente-se culpada porque gosta de apanhar. Jung, ariano, careta e pai de três filhos inicia ‘aquele tratamento da conversa’ (conforme explica a esposa burguesa do médico suíço) com Sabina. O tempo passa e Jung passa do papo para rituais sado-masô com a paciente. Nessas cenas, impossível não lembrar da conhecida e provocativa frase de Nelson Rodrigues: “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais, as neuróticas reagem”.

Cronenberg volta ao tema de um de seus primeiros filmes, Calafrios, que retrata o sexo como fonte de sofrimento e loucura. No filme de 1975, uma estranha doença mimetizada em um bicho asqueroso é transmitida pelo beijo ou na relação sexual em um labirtíntico condomínio. Escatológico, Cronenberg sempre foi. Quem não se lembra de Jeff Goldblum desmantelando-se na Mosca. E ainda cabeças que explodem em Scanners, sua mente pode destruir e Holly Hunter em pedaços em Crash.

Freud por Mortensen e seu indefectível charuto
Freud por Mortensen e seu indefectível charuto

O tratamento de Sabina faz Jung procurar Freud e sua maior experiência, que vive se queixando do aperto de seu apartamento em Viena e é cercado por intelectuais judeus puxa-saco. Viggo Mortensen dá vida a um Freud bem-humorado e sempre de charuto na boca. Contemporânea a sua criativa interpretação de Freud, é a sua versão de William Burroughs em On the Road, de Walter Salles. Leia crítica sobre o filme.

A discordância intelectual e de método dos dois aparece somente como pano de fundo da narrativa. Ou quando discordam em uma conversa sobre vaginas e taras sexuais enquanto Jung serve-se de generosa porção de rosbife na mesa de jantar sob o olhar espantado das etéreas filhas de Freud. Ou no instante em que Freud sofre estranho ataque quando polemiza com Jung sobre mitologia.

Em determinado momento, Freud interrompe a prosa dos dois porque ela já dura 13 horas. O teor da conversa vai da imaginação e do conhecimento de cada um sobre a obra dos dois. Para relaxar depois de tantas conjecturas, os dois bem que podiam acompanhar Renato Russo em Conexão Amazônica (1980): “estou cansado de ouvir falar em Freud, Jung, Engels, Marx. Intrigas intelectuais. Rodando em mesa de bar, yeah, yeah, yeah”.

Freud e Jung
Freud e Jung

O filme ainda aborda rapidamente como Freud acreditava que os problemas psíquicos sempre tinham origem sexual e Jung e sua obsessão pelos próprios sonhos. Outro flagrante curioso é o preconceito de Freud aos não-judeus, ele afirma para Sabina, também judia, que Jung não é confiável pelo simples fato de não ser judeu. A fala talvez sugira a falibilidade do caráter de Jung que chegou a demonstrar simpatia pelo nazismo.

Comments (2)

  1. zonacurva 01/05/2012

    Em belo texto no blog do IMS, José Geraldo Couto e o corpo em Cronenberg, acesse http://tinyurl.com/7xcshfn

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    • MARIA HELENA CURY 05/05/2012

      SUA ANÁLISE É MAIS EXPOSITIVA E NÃO MENOS CERTEIRA >> NA MOSCA.

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