Entre a fome e o combustível

Em meio ao anunciado fim da era do petróleo e da redenção energética através da biologia e da agricultura, o economista, engenheiro e diretor da École Supérieure d’Agriculture d’Angers, na França, Bruno Parmentier, pesquisdor sobre o futuro da alimentação, vem tirando o apetite dos estrategistas europeus, desde que lançou o livro Nourrir l’Humanité (Nutrir a Humanidade, editora La Découverte).

No best-seller, ainda sem tradução em português, ele acena com uma “era da penúria” e parte do princípio de que garantir a nutrição de uma população fortemente expandida é uma novidade radical para a humanidade.

Capa do livro de Parmentier
Capa do livro de Parmentier

Se até o século XVI, a população mundial pouco evoluíra, e apresentou crescimento suave nos séculos XVII e XVIII, seguido de outro mais acentuado no XIX, tocando mais a Europa e a Ásia, depois se espalhando para outras partes, em 1900, havia no planeta 1,8 bilhão de habitantes, 50% dos quais comiam satisfatoriamente. Mas contavam-se 800 milhões de mal nutridos.

Há pouco mais de 50 anos, em 1950, éramos 2,8 bilhões e havia algo em torno de 800 milhões de pessoas com fome. Hoje, com a população mundial batendo no teto dos 6,3 bilhões, continuamos encontrando algo como 800 milhões de famintos.

No viés otimista da leitura desses números, há a bela performance de que, em um século, a humanidade conseguiu dar o que comer a mais 4,5 bilhões de pessoas. Mas Parmentier nos leva a observar com certo pessimismo essa estranha “lei” fundamentada em um número persistente: qualquer que seja a população do planeta há sempre algo como 800 milhões passando fome.

Foto de Sebastião Salgado
Foto de Sebastião Salgado

Leia entrevista de Bruno Parmentier, concedida em 2007 ao suplemento “Aliás”, do jornal O Estado de S. Paulo.

É imperativo encontrar alternativas. Mas as reservas de terras disponíveis para agricultura são cada vez menores, boa parte por conta da urbanização. A mecanização da agricultura, a fabricação de fertilizantes e outros modos de produção dependem de energia. Com o preço mundial do petróleo sob forte tendência de alta, será extremamente sensível o impacto psicológico da cotação rompendo o patamar dos US$ 100, já iminente. Isso complicará a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da mecanização do setor. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais trabalham com energia animal e um bilhão não tem nem animais nem tratores. Um bilhão de produtores está completamente à margem!

Com cenários de números e estatísticas, ele se posiciona como defensor da produção de biocombustíveis, mas não com base em cereais, e questiona o fato de o Brasil, enquanto potência agrícola, ainda não ter solucionado a nutrição da sua população. Bruno Parmentier nos lança à reflexão frente à equação regida por uma coincidência: 800 milhões de pessoas sentem fome no planeta. Temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de caminhões. O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E agora?

Albenísio Fonseca é jornalista. Conheça seu blog.

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