Já é uma tragédia

Nesse momento do Brasil, eu gostaria muito de usar o tom cordato que aprendi na política, e dizer: “votei contra Bolsonaro, mas agora vou torcer pra dar certo, porque ele é o presidente de todos os brasileiros”. Esse bom-mocismo é sempre recomendável nessas horas, até por respeito à divergência de pensamento. Mas lamentavelmente, não dá nem pra ensaiar uma frase absurda dessas. Em menos de 24h, o governo Bolsonaro já representou um doloroso e brutal retrocesso aos parcos avanços históricos da democracia brasileira.

Bolsonaro extinguiu o CONSEA! Sim, fechou as portas do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, em um momento em que o Brasil está retornando ao mapa da fome! É que na cabeça alucinada da extrema-direita, órgãos de Segurança Alimentar são coisa de “comunista”… Além disso, Bolsonaro entregou a demarcação de terras aos ruralistas! Colocou a raposa pra tomar conta do galinheiro.

Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, porque na mentalidade absurda da extrema-direita, os artistas são todos comunistas chupando o sangue do estado brasileiro através da Lei Rouanet… (será que esses caras ouvem música? Será que assistem filme?). O presidente também retirou a população LGBT da matriz dos Direitos Humanos (o Brasil é o país que mais mata LGBT+ no mundo, um a cada 19 horas). E mais. Bolsonaro elegeu, como um de seus primeiros atos, diminuir o salário mínimo. Sim, diminuir. Porque Temer havia anunciado aumento para R$ 1.006, e Bolsonaro reduziu para R$ 998. Bolsonaro demonstrou como tratará a liberdade de imprensa, ao submeter os jornalistas, em sua posse, a falta de condições de trabalho e regras torturantes e inaceitáveis (quase nenhuma palavra sobre isso no Globo e no Estadão de hoje!).

Bolsonaro anunciou que vai determinar, por decreto, a universalização da posse de armas. E quanto aos históricos e graves problemas da educação brasileira, Bolsonaro acha que a solução deles é “eliminar o marxismo das escolas” (ele não explicou como um país cujas escolas são marxistas é capaz de eleger a extrema direita).

Jair Bolsonaro recebe a faixa presidencial das mãos do antecessor, Michel Temer (fonte: Folhapress)

Bolsonaro também deu espaço ao delírio, ao dizer que vai libertar o povo do socialismo (em um país onde os bancos lucram fortunas mesmo na crise, e onde apenas seis brasileiros controlam metade da fortuna nacional), e também vai libertar o povo do “politicamente correto” (oi?!). Além disso, vai acabar com a “ideologia de gênero”, conceito que não quer dizer coisa alguma. Faltou ele prometer acabar com os duendes na floresta Amazônica, com a visita dos ETs a Varginha, e com o coelhinho da Páscoa.

Amigas e amigos, temos uma trupe ultrarradical e populista no poder, e que tem base social consolidada. Parte significativa da população está esperançosa… Mas a oposição a esse projeto reúne de Marina Silva a Guilherme Boulos, de Luciano Huck a Marcelo Freixo, de Reinaldo Azevedo a Eduardo Suplicy, da Folha de S. Paulo ao PSTU. Combater esse projeto será um trabalho difícil, tortuoso e às vezes desanimador, mas muitos são os braços se levantando para a tarefa. Se resistir é a função que a História nos reservou, resistiremos!

Publicado originalmente no Planeta Uchoas.

Comments (3)

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  3. Valentim Petri 03/01/2019

    Se ele não é de direita e muito menos da esquerda, de que lado ele está, ex militar aposentado por demência, um deputado fantasma durante 4 mandatos, levou uma facada, virou mito, o Bozo de Deus agora o salvador da Pátria, bem acho que estamos em manicômio chamado Brasil.

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