Na Espanha, a utopia das ruas agora ocupa também os gabinetes de Madrid e Barcelona

A possibilidade de novos caminhos para os becos sem saída da política atual nos chega de terras espanholas. O comando das duas principais cidades espanholas, Madrid e Barcelona, passaram às mãos no último sábado (dia 13) de mulheres envolvidas com a prática de um novo fazer político, principalmente através de uma participação mais efetiva da população. Tanto a nova prefeita de Madrid, Manuela Carmena, como a de Barcelona, Ada Colau, são filhas legítimas das manifestações de 2011, surgidas dos anseios de um país cansado da crise econômica e do domínio do mercado financeiro em suas vidas.

Apelidado de 15M, o movimento que ficou marcado pelo protesto de 15 de maio de 2011 e se espalhou com o uso da força da internet e das redes sociais apareceu coincidentemente nas eleições municipais há 4 anos. O partido Podemos, principal força política relacionada a esse movimento, criado em janeiro do ano passado, fará parte do governo de Colau e de Carmena. O bom resultado do Podemos nas urnas nas eleições municipais deste ano coloca Pablo Iglesias, líder do partido, como protagonista das eleições gerais espanholas no final deste ano.

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Manifestante espanhola em 2011 (fonte: Fotmovimiento.org)

A juíza aposentada Manuela Carmena encabeçou a Ahora Madrid (Agora Madrid), auto-denominada chapa cidadã que reuniu o Podemos e um leque diversificado de movimentos sociais e de cidadania. Carmena colocou fim ao domínio de 24 anos do direitista PP (Partido Popular) na capital espanhola. Para governar a capital espanhola, ela contará com o apoio do PSOE (Partido Socialista Obrero Español) de centro-esquerda.

O jornalista espanhol Bernardo Guitérrez destaca as inovações da campanha de Carmena como o programa elaborado de forma colaborativa, autofinanciamento (através de microcréditos e doações particulares), auto-organização de diferentes coletivos, redes, movimentos cidadãos ou fluxos espontâneos, entre outras iniciativas inovadoras. Segundo Gutiérrez, Carmena passou de desconhecida a ícone pop. Leia texto de Gutiérrez.

A insurgência dos movimentos sociais e a busca da prática de uma cidadania mais participativa utilizam como arma de luta a web para a conquista de adeptos. O fenômeno surge no momento em que amplos setores da classe política se afastam dos eleitores, vivendo praticamente em uma realidade paralela em defesa de interesses corporativos. Isso pode ser observado em vários países atualmente, inclusive no Brasil.

O uso da internet surge como saída para combater a manipulação e desonestidade da grande mídia, cúmplice da defesa de interesses corporativos e de camadas privilegiadas. O movimento 15M utilizou, por exemplo, streaming ao vivo de assembleias e criou canais próprios de comunicação na divulgação de seus atos, criando uma alternativa real e horizontal ao cada vez mais viciado jornalismo praticado pela velha imprensa.

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Montagem fotográfica com a nova prefeita de Madrid, Manuela Carmena

O breve currículo da nova prefeita de Barcelona, Ada Colau, já nos sugere sua agenda política: ativista antidespejo de 41 anos, feminista, militante de direitos humanos e ex-líder da PAH (Plataforma dos Afetados por Hipotecas), movimento organizado por pessoas despejadas de suas casas por não pagar hipotecas ao sistema financeiro.

Primeira mulher no comando de Barcelona, Colau liderou a chapa Barcelona En Comú (Barcelona em comunidade) que reuniu vários partidos (Iniciativa para a Catalunha, Esquerda Unida e Alternativa, Podemos, Ganhemos Barcelona, Procés constituent (Processo Constituinte)) lideranças sociais e de bairros.

Em 2013, quando ainda presidia a PAH, foi presa ao protestar em frente a um banco contra os despejos. Após dois anos, a situação mudou. Hoje, em seu primeiro dia como prefeita, Colau já impediu despejos em um dos bairros mais pobres de Barcelona. Outras de suas promessas de campanha são a redução de privilégios e salários de autoridades, geração de empregos e a revisão de projetos de privatizações.

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Ada Colau assume como prefeita de Barcelona no dia 13 de junho (sábado)

O que começou como um protesto em 2011 contra as políticas de austeridade do governo espanhol e a hegemonia política e financeira da Troika, formada pela Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI, resultou agora em um cenário de esperança por mudanças na política espanhola, processo semelhante já está em curso na Grécia.

A pressão financeira da Troika levou à pauperização de muitos espanhóis e a taxas recordes de desemprego com cerca de um quarto da população sem trabalho. A convocação para o protesto na ruas no dia 15 de maio (data que apelidou depois o movimento de 15M), com a chamada “Democracia Real Ya! Ocupe as ruas. Não somos mercadorias nas mãos dos políticos e banqueiros!”. Neste dia, 50 mil em Madrid e 20 mil pessoas em Barcelona ocuparam as ruas. Relembre o manifesto que circulou naquela época na rede:

“Somos pessoas comuns. Somos como vocês: pessoas que se levantam de manhã para estudar, trabalhar ou procurar emprego, pessoas com famílias e amigos. Pessoas que dão duro todo dia para viver e proporcionar um futuro melhor a todos os que nos rodeiam. … Porém, neste país, a maioria da classe política nem sequer nos escuta. Suas funções deveriam ser levar nossa voz às instituições, facilitando a participação política cidadã e procurando o maior benefício para a sociedade em geral, e não enriquecer à nossas custas, atendendo apenas às ordens dos grandes poderes econômicos e mantendo uma ditadura partidocrática… Somos pessoas, não mercadorias. Não sou apenas o que compro, por que compro e para quem compro. Por todos esses motivos, estou indignado. Acredito que posso mudar. Acredito que posso ajudar. Sei que unidos não conseguimos. Venha conosco. É seu direito”

(extraído do livro Redes de Indignação e Esperança, movimentos sociais na era da internet, do professor espanhol Manuel Castells).

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Manifestantes na Espanha (fonte: Opera Mundi)

No surgimento dos 15M, parte da imprensa também os apelidou de Indignados, devido ao entusiasmo de muitos deles com o panfleto Indignez-vous!, produzido com um trecho do livro de mesmo nome publicado em 2010 pelo filósofo e diplomata francês Stéphane Hessel, que faleceu em 2013 aos 95 anos.

A revolta da população que sofria na pele a crise econômica fez ressurgir no jogo político os reais interesses da maioria contra muitos políticos que se aliaram aos banqueiros e suas jogadas especulativas. Por exemplo, na luta da prefeita Colau, fica clara a injustiça da falta de opção de uma família pobre e endividada perante um sistema financeiro corrupto e oligopolista. E até que ponto a população, por mais que tenha votado em certos governantes, deve arcar com os enganos de uma política neoliberal praticada por uma classe política irresponsável.

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FOTO 5: A nova prefeita de Barcelona, Ada Colau, com a camisa na época sua luta contra os despejos (desahucios, em espanhol) dos hipotecários

A eleição na Espanha mostrou que parte da população realmente indignou-se diante do status quo vigente e resolveu acreditar no que parecia utópico até outro dia.

Ada Colau agradece aos moradores de Barcelona os votos recebidos:

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