No bico do corvo (1)

Um Deus sensível. Manda repouso à dor que te devora. Destas saudades imortais. (poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe)

 

Estava com o pé na cova, quase fui pro saco, por um fio não fui dessa para melhor… Depois de um mês no hospital (15 dias de UTI), 4 cirurgias e 60 dias de convalescência, estou de volta. Além de me perguntarem se melhorei, amigos e parentes me questionaram duas coisas: se tive alguma iluminação metafísica ou contato com o além e se agora passei a valorizar mais as ‘pequenas coisas’ da vida.

Começo pela segunda: me emocionei sim quando voltei a ver minha filha dormindo como a pureza de um anjinho, ao comer um pastel de feira, ao dar um mergulho no mar, ao sentir forças para o meu primeiro treino de corrida no Ibirapuera e outras ‘pequenas coisas’.

Quando renasci, lembrei de como o mundo lá fora me chamava e eu tinha a cama como o meu terreno exclusivo, a minha minúscula cela monitorada por fios, eletrodos e monitores, sinto calafrios pela espinha ao recordar.

A televisão a cabo com poucos canais, metade deles com pastores televisivos e suas picaretagens de costume, aumentava o meu desespero por não conseguir ler um livro. Nem em meus piores pesadelos, imaginei que não conseguiria praticar uma de minhas paixões mais comezinhas. Dentro do possível, mantive a calma.

Recordo de forma nebulosa, vivia sob efeito de bombas da medicina moderna, do meu vizinho de UTI. Não queria comer, tomar água, nem dar um curto tour pelo cenário de filme trash de entubados e adormecidos da UTI mas cismou que queria fumar. Uma pequena comitiva de três enfermeiras formou-se para convencê-lo da impossibilidade de tragar sua nicotina. Ele cismou até onde suas forças permitiram. Vencido, dormiu. Vício maldito, que larguei após a internação, pelo menos, por enquanto.

 

Escapei por pouco do corvo
Escapei por pouco do corvo

 

Nada me acalmou tanto quanto a doce morfina, que diminuía as dores lancinantes que me faziam contorcer. Com um pequeno controle remoto na mão, dosava as quantidades de morfina quando sentia dor. Confesso que desobedeci as ordens médicas de não exagerar. Apertava o botão como um desesperado e paz, muita paz artificial!

Rezei, rezei bastante. Pela via das poucas orações que sei, tive papos bem próximos com ELE. Não resolve mas alivia. E também já prepara o terreno como, se acontecesse o pior, aquecimento para o papo tête-à-tête.

Rezei o Evangelho Segundo o Espiritismo com minha mulher, trecho da Bíblia com minha prima ao lado da cama (falei para ela que era cedo para a extrema-unção), orei a oração de São Francisco, esperei na UTI com paúra a visita de um espírito de luz (lembro de sua cara etérea em sulfite enviado por uma amiga), fiz promessa para Nossa Senhora (já cumpri) e desejei a paz que já experimentei após uma sessão de yoga. Rezaram por mim também. E muito. Agradeço a todos.

Um dos médicos me disse que se tivesse a infecção que me pegou há 20 anos, já era. Três vivas! Estamos em 2013, em pleno século 21. Sinto não ter me despedido de alguns médicos e enfermeiros que me ajudaram. Foi o receio da lembrança por parte deles da falta de mais um exame… Nem a pau.

Não tive medo da morte, só pensei que era injusto morrer aos 40 quando sempre quis chegar aos 80. Tenho muito o que fazer e viver.
Faltou responder a uma das perguntas do primeiro parágrafo, se tive contato com o além, não tive nenhuma experiência extra-corpórea, epifania ou revelação. E nem pretendo ter tão cedo.

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