O desafiador surgimento do “quinto poder” na política nacional

Quinto poder – Até agora as redes sociais eram vistas apenas como um território sem lei onde predominavam a fofoca, os boatos, as fake news e as diatribes pessoais. Mas, desde as eleições do ano passado, e principalmente depois da posse do capitão aposentado Jair Bolsonaro, redes como Facebook, Twitter, YouTube e WhatsApp passaram a ser também o espaço para o exercício do poder presidencial, colocando-nos diante de uma gigantesca incógnita política.

A constituição brasileira estabelece que o país seja governado por três poderes (executivo, legislativo e judiciário), mas a realidade é bem outra. No jargão político, garante-se que há um quarto poder — a imprensa. E agora as novas tecnologias digitais dão lugar a um “quinto poder”, formado pelas redes sociais virtuais, que vai nos obrigar a uma ampla reeducação política e mudanças radicais em nosso comportamento social.

Inicialmente, acreditava-se que as redes, abertas a qualquer pessoa, seriam a opção preferida da esquerda , historicamente carente de acesso aos meios de comunicação em massa. Mas, para surpresa de muita gente, foram os grupos conservadores e de extrema direita que mais benefícios conseguiram na ocupação política do espaço cibernético no Brasil. As redes sociais viabilizaram o fim dos 14 anos de hegemonia do Partido dos Trabalhadores e foram o principal instrumento para que a direita conquistasse, nas eleições de 2018, a Presidência da República, bem como o controle das duas casas do Congresso Nacional.

O surgimento deste “quinto poder” na arena política marca o início de uma verdadeira revolução no comportamento dos eleitores e uma quebra de paradigmas nas normas que regulam o funcionamento das instituições, sem que seja possível, por enquanto, vislumbrar o desfecho do processo que deu ao cidadão comum o inédito poder de opinar e agir em qualquer assunto. A única coisa que é possível prever é que as mudanças serão muitas e grandes já que as redes conferem um maior protagonismo ao eleitor comum num espaço político ainda desconhecido por muitos.

Os jornais e as rádios dominaram o cenário político brasileiro desde a Proclamação da República, em 1889, até os anos 70, quando a televisão passou a monopolizar as atenções eleitorais. Segundo os pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, Marco Aurélio Ruediger e Lucas Calil, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, a evolução das tendências políticas passou a ser medida em horas e não mais em dias e semanas como aconteceu na ultima eleição para a presidência da mesa diretora do Senado Federal. Milhares de micro mensagens de eleitores a senadores via redes sociais levaram os parlamentares a mudar de posição várias vezes num mesmo dia.

Ilustração Pixabay / CC

O vale tudo parlamentar

O Partido Social Liberal (PSL , de direita) , ao qual pertence o presidente Bolsonaro, que teve apenas seis segundos de espaço na propaganda eleitoral gratuita na televisão, conseguiu o espantoso feito de passar de um único deputado na câmara federal eleita em 2014 para 52 deputados na atual composição do legislativo nacional. Um resultado obtido basicamente graças à viralização de mensagens conservadoras pelas redes sociais. Os resultados obtidos na manipulação do “quinto poder” levaram tanto Bolsonaro como os 243 novos deputados federais e os 45 senadores também novatos no Parlamento, eleitos no ano passado, a mudarem radicalmente o seu comportamento público.

Eles esnobaram a imprensa como canal de comunicação com a sociedade e transformaram seus celulares em verdadeiras metralhadoras giratórias virtuais disparando mensagens políticas em todas as direções e sobre qualquer assunto. Os debates em plenário na Câmara e no Senado passaram a ser apenas panos de fundo para incessantes articulações via Twitter, blogs individuais e Facebook .

As negociações entre partidos também ficaram condicionadas ao poder das redes, como pode ser visto na eleição da nova mesa diretora de Assembléia do Estado de São Paulo, quando adeptos dos vários candidatos ao cargo travaram uma batalha online onde os valores éticos tradicionais foram atropelados impiedosamente. A posição dos parlamentares oscilou em função dos desejos dos internautas manifestados de forma passional e caótica em micro mensagens pelo Twitter.

As redes sociais criaram também um ambiente propício à veiculação de notícias falsas, fora de contexto ou apenas parcialmente verdadeiras, um fenômeno que deu origem às chamadas “bolhas” políticas. São espaços virtuais formados por pessoas que compartilham as mesmas opiniões e que pelo fato de excluírem vozes divergentes geram sectarismos, xenofobias e o temível discurso do ódio. Esta é a razão pela qual as campanhas eleitorais pelas redes sociais tendem a se tornar tão violentas e sectárias. A revista Épocareproduziu um estudo da organização IDEA-Big Data segundo a qual 98,2% dos eleitores de Bolsonaro receberam notícias falsas pelas redes sociais e 89,77% deles as consideraram dignas de crédito.

Os influenciadores

O “quinto poder” deu origem a um novo personagem político, os chamados “influenciadores”, ativistas online possuidores de um grande número de seguidores em redes sociais e cujas opiniões são amplamente compartilhadas entre usuários da internet. O auge da participação dos “influenciadores” ocorreu pouco antes das eleições no ano passado, mas a presença deles continuou intensa depois da posse de Bolsonaro por meio de “bolhas” de seguidores pressionando o novo presidente a escolher ministros e projetos de interesse de igrejas evangélicas e movimentos ultraconservadores. Entre os influenciadores mais badalados está Olavo de Carvalho, um controvertido personagem que vive nos Estados Unidos, tem 500 mil seguidores só na rede Facebook, mas que indicou dois ministros (Educação e Relações Exteriores) e é considerado o principal guru da extrema direita brasileira.

O que mais preocupa cientistas políticos como Sergio Abranches e Heloisa Starling é a possibilidade das redes sociais virtuais abrirem caminho para a prática de uma “democracia direta” onde as grandes questões nacionais sejam decididas por plebiscitos online nos domínios do “quinto poder”. A abertura do espaço político a qualquer indivíduo dotado de um celular, tablet ou computador com acesso à internet, gera um desafio ao mesmo tempo apaixonante e intimidador.

Publicado originalmente na página MEDIUM do professor Carlos Castilho.

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