O presente burocrático

Por motivos pessoais, ZonaCurva ficou em jejum por um tempo. Em época de presentes e Noéis, republicamos a crônica ‘O presente burocrático’ (publicada originalmente em 9 de dezembro de 2011). Em breve, muitas novidades por aqui, a todo vapor e avante. Aguardem!

Papai Noel sentado no meio da Paulista, árvore gigante no Ibirapuera, o contagiante e irritante espírito natalino aportou em Sampa. Molharam o Gizmo. A lista de caixinhas multiplica-se como gremlins, do entregador de jornal, dos funcionários do prédio, do estacionamento, dos lixeiros, algumas de origem insólita. Distribuição de renda by Santa Claus. Todos ganham um por fora.

Pelos quatro cantos, a pergunta que não quer calar: “se não der presente para fulano, vai ficar chato?”. Em ato de desespero, toma-se o rumo do shopping ou da FNAC com a indefectível lista de Natal. Pensamento no fulano, nenhuma idéia à cabeça. Poupe seu dinheiro com o presente burocrático, ofertado sem o menor sinal de vontade, por pura obrigação.

Papai Noel, velho batuta..
Papai Noel, velho batuta..

A vítima do presente burocrático sempre percebe, chefes entediados ou tios famintos pelo tender não contam. Muitos felizardos agradecem animados em momento teatro mambembe o presente sem graça, soa mais falso que nota de três. Existe também o presente burocrático institucionalizado. O tal do amigo secreto da firrma. Para esse, sem escapatória.

Presente demonstra afeto, teoria boa, difícil de aplicar. O presenteado sente quando o regalo foi dado por amigo ou familiar que realmente o conhece. Missão complicada de completar, mas, como diz mais uma propaganda natalina entre centenas na telinha, “é época de transformar seu desejo em realidade, compre…”

Se você ganhou lenços Presidente ou meias Ace de sua avó, não se entristeça ao crer que ela não lhe tem afeto. Ela se preocupa que se uma ‘corrente de ar’ o pegar desprevenido e você se gripar, irá assoar o nariz direitinho e manterá os pés bem aquecidos.

Para muitos, sentimentos como inadequação e rejeição afloram no chamado período de festas. Só em imaginar a ausência de presentes, calafrios percorrem suas espinhas. Se isso infelizmente acontecer, vai ver que o pessoal só está duro mesmo.

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

Twitter 

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: