Paixão, carimbó e desmatamento

A violência e a paixão sempre tiram os personagens dos filmes de Beto Brant do prumo. Não é diferente no novo filme do diretor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, nos cinemas. Desta vez, Cauby (Gustavo Machado), fotógrafo nos cafundós do Pará, encontra a loucura e uma certa epifania em Lavínia, interpretada magistralmente por Camila Pitanga, tudo regado a florestas desmatadas e carimbó.

Brant nunca fez filmes insondáveis e nem ‘à la Daniel Filho’. Suas obras sempre retratam os seres humanos em situações-limite. Ao mesmo tempo, equilibrando-se no fio da navalha, eles encontram sentido ou a falta dele para suas vidas.

Em Matadores (1997), o paraguaio e assassino de aluguel Múcio (Chico Diaz) perde a cabeça por Helena (Maria Padilha) em ambiente inóspito (fronteira Brasil-Paraguai), bem semelhante ao filme em cartaz. Em O Invasor (2001), a violência leva ao desespero completo o personagem Ivan, interpretado por Marco Ricca.

Inspirado na obra homônima do escritor Marçal Aquino, lançada em 2005, pela Companhia das Letras, o filme consolida a parceria criativa entre ambos: dois roteiros adaptados diretamente de livros de Marçal (Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e O Invasor) e quatro roteiros elaborados pelos dois (Cão sem dono, Crime delicado, Ação entre amigos e Os matadores).

Camila Pitanga matadora como Lavínia
Camila Pitanga matadora como Lavínia

Cauby e seu amigo, o jornalista Vitor Laurence, interpretado por Gero Camilo, estão isolados em um ambiente hostil e violento. Laurence, intelectual delirante, atua como profeta do caos, e alimenta ainda mais as incertezas do fotógrafo como o próprio afirma, em primeira pessoa, no livro: “minha situação financeira era preocupante: eu levava uma vida modesta, mas quase não trabalhava… eu estava fazendo quarenta e quatro anos naquele dia. Passava da hora de pensar num rumo” (páginas 133 e 134).

Mais explorado no livro, a fauna da trama, formada por policiais, garimpeiros, jagunços e índios, aparece somente nas bordas do filme. Apenas em curto momento, Brant retrata uma mobilização por causas humanitárias. O filme foge dos tons panfletários ao evitar o caldeirão político e social da região.

Um dos grandes achados do filme são as cenas em que a loucura de fato de Lavínia são representadas por cenas de extermínio da exuberância natural amazônica. A doença mental da protagonista dá os primeiros sinais em sua reação ao ritual de exorcismo que seu futuro marido, o pastor Ernani (Zecarlos Machado) a submete. Resultado da ‘libertação’ de Ernani: Lavínia parte como sua esposa para o norte do país e larga a prostituição nas ruas do Rio de Janeiro.

No filme, não se sabe como Lavínia encontra seu amante, Cauby, já no livro, sabemos como se dá a faísca para o que virá depois, como narra o fotógrafo: “… o famoso porta-retrato do dia em que nos conhecemos na loja de Chang. Dia em que me apaixonei por ela. Em que contraí o vírus da sua loucura. Um veneno para o qual eu ainda não havia encontrado antídoto” (página 194).

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