Zona Curva

o gigante acordou

#vemprarua invade a Flip 2013

Com corruptela de Diderot*, o filósofo Vladimir Safatle empolgou o público: “nós queremos que o último mensaleiro petista seja enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano”. Em mesa da Flip 2013, Safatle lembra que a luta contra a corrupção não se encaixa como bandeira conservadora e que vivemos crise de representação, tanto na política como na imprensa. O debate atrasou e foi iniciado com o comunicado de que mais uma estrela da Flip, o poeta palestino-egípcio Tamim Al-Barghouti não viria para participar do evento no domingo (dia 7). Apesar do furacão político que seu país atravessa, Barghouti, conhecido como o poeta da primavera árabe, conseguiu chegar a Londres mas perdeu seu passaporte e ficou impossibilitado de comparecer à festa de Paraty. A mesa Da arquibancada à passeata, espetáculo e utopia na noite de sábado (dia 6 de julho) na 11ª Flip (Festa Literária de Paraty) foi criada nos últimos dias após o cancelamento da palestra de outra estrela da Flip, o escritor francês Michel Houellebecq. O evento reuniu o filósofo Vladimir Safatle, o psicanalista Tales Ab’Saber e o escritor inglês T.J. Clark e foi mediado pelo jornalista Mario Sergio Conti. Ab’Saber lembrou do ‘começo de tudo’, os integrantes do MPL, o Movimento do Passe Livre. “Eu passava na Doutor Arnaldo (avenida paulistana) e aqueles meninos sempre estavam lá protestando contra os aumentos de ônibus, desde 2005”. Segundo ele, o MPL trabalha no “presente absoluto e não respondem nem ao PSTU e ao PSOL e, muito menos, ao lulismo-petismo”. Com dois metros de altura e pinta de Zizek paulistano, Ab’Saber encara temas espinhosos. Escreveu dois livros ousados: o primeiro analisa a cultura clubber, A música do tempo infinito, e o segundo, Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica (Editora Hedra), em que investiga aspectos da construção da persona carismática do ex-presidente Lula. “O lulismo tem um componente de erotismo primitivo”, disse. O crítico e historiador britânico T.J. Clark iniciou sua participação ressaltando que não estava preparado para analisar a situação brasileira. “Foi o tempo em que intelectuais como Negri e Sartre sentiam-se no direito de avaliar a situação de outros países”. Para ele, o Estado alimenta-se desses momentos falsos de unidade nacional como a Copa do Mundo. “As catedrais do futebol estão cada vez maiores mas algo está acontecendo e nem o Pelé conseguirá espantar essa raiva”. * Citação original do filósofo francês Diderot : “O mundo somente será livre no dia em que o último padre for enforcado nas tripas do último general”. Acorda, Paraty na Flip 2013

Acorda, Paraty na Flip 2013

No dia 6 de julho (sábado), penúltimo dia da Flip (Festa Literária de Paraty), o povo da pequena cidade fluminense acordou. O movimento Acorda, Paraty mobilizou cerca de 200 moradores e interditou a ponte sobre o rio Perequê-açu, que liga a festa ao centro histórico, por 30 minutos. Os paratyenses aproveitaram a presença da mídia grande por lá como os jornalões O Globo e a Folha de São Paulo, e a TV Globo, além de milhares de turistas que lotam a cidade, para mostrar sua indignação contra a precariedade dos serviços públicos. As faixas do protesto pediam melhorias, principalmente, na segurança, educação e transporte público. Segundo os moradores, somente nesse ano, foram 31 assassinatos na cidade de 35 mil habitantes. Durante a manifestação, foi lida uma pauta com diversas reivindicações como a efetivação de professores aprovados em concurso e a preservação de áreas de mangue. Segundo moradores da cidade entrevistados pelo Zonacurva, há constantes faltas de luz e água na cidade e o saneamento básico é precário. “Após trabalhar nos restaurantes e pousadas, voltamos para a Ilha das Cobras e o Campinho (bairros periféricos da cidade) em que a realidade é outra, por lá, só tem violência e tristeza”, afirmou manifestante que não quis se identificar. Mais fotos do protesto:

Fotos da Primavera de junho

Créditos das fotos: 1. Passe livre= início de tudo (Crédito desconhecido) 2.De mãos dadas contra a PM (Crédito desconhecido) 3. Uma cidade muda não muda (Crédito: facebook oene) 4. A periferia vai às ruas: protesto no Capão Redondo (Crédito: facebook Ninja) 5. A repórter da Folha de São Paulo, Giuliana Vallone, ferida no olho durante o protesto (Crédito: http://desventurasdeumalterego.blogspot.com.br/2013/06/protesto-contra-o-comodismo.html) 6. Protesto antes da final da Copa das Confederações (Crédito: http://heroisbadernistas.tumblr.com/)

Cinco flashes do gigante que acordou

Flash 1 Na semana passada, a morena de legging colorido e polainas pretas vivia em pânico. Passou a ouvir a CBN e a Jovem Pan AM no caminho para a academia. Se tivesse protesto, perderia a aula de spinning. Nada podia atrapalhar a rotina de exercícios e o regime que já a tinha feito perder três quilos nos últimos dois meses. Flash 2 Ontem ele ligou o dia inteiro em seu Iphone 5 e nada. Irritado, o diretor da empreiteira finalmente consegue encontrar o assessor do Secretário de Obras: – Tá difícil te achar, hein. E aí, alguma novidade? – Xiii, o pessoal por aqui anda paranóico, tá tudo de cabeça pro ar, a secretária do Cleison me disse que pararam de liberar as verbas, pelo menos até a poeira abaixar. – Sacanagem, o dinheiro já tá na conta faz três meses. – Calma, calma, o negócio vai virar… Flash 3 Anderson não foi trabalhar três dias nas últimas duas semanas. Anda feliz da vida. Nas folgas, faz visitas rápidas à casa de Clotilde pela porta dos fundos. Clotilde, loirinha e magrinha, largou seu emprego de atendente de papelaria para cuidar de seu segundo filho, Manoel Júnior. Manoel sai cedo para o trabalho, vai de bicicleta. Anderson acha que “essa molecada tá certa, eles tão mudando o Brasil”, falou para colega no boteco do bairro. Flash 4 O policial aposentado entra no elevador e vocifera contra o estudante de Ciências Sociais com cartolina embaixo do braço: – Isso aqui tá uma baderna, tem que descer o pau nessa molecada folgada! – O senhor está me provocando? – Nem te conheço mas, pra mim, vagabundo que quebra tudo tem é que levar bala! – Santa ignorância, nem sabe o que fala! O elevador chega ao térreo. Flash 5 A professora universitária chorou muito ao lado de seu gato preto na sala do apartamento de um quarto ao ver as imagens das manifestações na tv a cabo. Lembrou dos anos 60, lembrou de como tinha um corpão e de que nunca mais sentiu-se tão livre como naquela época, mesmo sob a ditadura militar.

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