Zona Curva

Roberto Piva

Evento PIVA 80 anos

No próximo dia 25 de setembro, o poeta Roberto Piva completaria 80 anos (ele morreu em 3 de julho de 2010) e durante esta semana irá rolar uma homenagem a um de nossos maiores poetas. O colaborador Zonacurva, Guilherme Ziggy, participa do evento organizado por Gabriel Kolyniak, Roberto Bicelli, Claudio Willer, os últimos dois eram grandes amigos de Piva. Leituras, debates, peça de teatro e até festa ocupam vários pontos da cidade. Confira: Para saber mais sobre Piva, clica aqui. A jornalista e escritora Renata D’Elia (autora do livro “Os dentes da memória”), Claudio Willer, Roberto Bicelli, Beth Brait Alvim, Guilherme Ziggy, Gabriel Kolyniak, Rubens Zárate, Celso de Alencar e outros convidados em um grande bate-papo sobre Piva. No dia 19 de setembro (terça) na Biblioteca Mário de Andrade (rua da Consolação, 94) às 19 horas. Acontece na Casa das Rosas (avenida Paulista, 37) mesa com poetas, autores de estudos sobre o poeta e outros sobre publicações e entrevistas de Piva, além de uma gravação inédita do livro Paranóia lido na íntegra pelo próprio Piva. Dia 23 de setembro (sábado) das 16h30 às 21 h. VIVA PIVA! no auditório da Funarte – SP (Alameda Nothmann, 1058). Dia 24 de setembro (domingo), horário a confirmar. Festa de 80 anos do Piva no Estúdio Lâmina (avenida São João, 108,) e apresentação da peça Paranóia, criada por Marcelo Drummond. Dia 25 de setembro (segunda). Para mais informações, ligue (11) 3228-6815. Mais informações na página da Biblioteca Roberto Piva (https://www.facebook.com/bibliotecarobertopiva/).

O homem-livro Massao Ohno

Filho de imigrantes japoneses, Massao Ohno marcou época entre os editores de livros no país. A Massao Ohno Editora publicou livros que impulsionaram a carreira de toda uma geração de escritores e poetas iniciantes que surgiu na capital paulista nas décadas de 60 e 70. Um desses livros representa o espírito de seu trabalho: a Antologia dos Novíssimos, de 1961, com poemas de Claudio Willer, Álvaro Alves de Faria e Eunice Arruda.  Ele publicou também figuras como Hilda Hilst e Roberto Piva. Em entrevista ao livro Dentes da Memória, de Renata D`Elia e Camila Hungria, Ohno lembra como teve a ideia de lançar a Antologia dos Novíssimos: “Em qualquer canto, havia um grau de criatividade muito grande. Esses poetas traziam uma inovação que gostávamos de incorporar à produção editorial. Mas o critério de escolha não de dava apenas por serem autores novos, e sim pelo fato de conter uma mensagem nova ou um estudo de forma interessante. Aí sim, eu creio que valeu a minha opinião, independente de críticos literários. Foi uma tentativa de sondagem. Um gosto pessoal” Leia texto sobre o livro Dentes da Memória que retrata a boa geração de poetas paulistanos Dentista de formação, Ohno iniciou as atividades de sua editora na década de 50 publicando apostilas para cursinhos pré-vestibulares. Mais tarde, começou a publicar autores que despontavam no cenário literário da época. Ohno editou cerca de 800 livros e incorporou trabalhos de Manabu Mabe, Ciro Del Nero, Aldemir Martins, João Suzuki, Jaguar, Millôr, dentre outros artistas, a seus livros, em capas ou ilustrações. Ohno militou na AP (Ação Popular), que combatia a ditadura militar e foi um dos produtores do genial filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. O editor morreu em Sorocaba em julho de 2010, casou quatro vezes e teve quatro filhos. A Serena Filmes finaliza um documentário sobre Massao através de financiamento coletivo. Acesse o site da produtora. Assista ao trailer do documentário:   A saga da vanguarda poética paulistana  

Epivanias lembra obra de Roberto Piva

  Entre os dias 16 e 20 de outubro, o ciclo de atividades Epivanias celebrará o poeta Roberto Piva. Se tivesse vivo, no dia 25 de setembro, Piva teria completado 76 anos. Veja texto sobre Piva em texto Zonacurva. O Epivanias contará com debates, palestras, shows, perfomances, exibição de filmes e leituras em vários locais de Sampa. O texto do evento   explica melhor: “descentralizando os eixos e extremos da paranoica Sampa-City num acontecimento religioso – e ritualístico – da raça”. A curadoria do evento é de Caco Pontes e Heyk Pimenta. Confira a programação do evento : Abertura + show São Paulo não é de Hoje (com Gustavo Galo e convidados).Além da apresentação musical, será exposto o resultado de uma vivência que trará depoimentos colhidos de frequentadores da instituição por meio de vídeos em formato de intervenções poéticas, retratando o transe nos ritos cotidianos da cidade, em diálogo com a obra de Roberto Piva. Após a apresentação será servido um coquetel ao público presente. – Onde: Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo (rua Vergueiro, 1000, Paraíso). – Quando: dia 16/10 às 20h.   Exibição Filme Uma Outra Cidade, de Ugo Giorgetti. – Onde: Cine Olido (avenida São João, 473, Centro). – Quando: dia 17/10, às 19h.   Recital Parabólicas Paranóicas (com Barbara Uila, Celso de Alencar, Chiu Yi Chi, Gabriel Kolyniak e Gustavo Benini + show Caco Pontes e Loop B). – Onde: Biblioteca Alceu Amoroso Lima (rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros). – Quando: dia 18/10, às 19h.   Performance Chá com Brócolis (de Luciana Annunziata, com Carol Araujo e Juliana Bernardo) + palestra Os dentes da memória (com Camila Hungria e Renata D”Elia) + show Pato Preto (com Ana Kehl de Moraes, Ana Luisa Saad Pereira, Laura Rosembaun, Lia Biserra, Paloma Mecozzi e Sofia Botelho de Almeida). – Onde: Biblioteca Alceu Amoroso Lima (rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros). – Quando:  dia 19/10, às 18h.   Oficina Ademir Assunção + Debate Poesia e Delírio (com Cláudio Willer, Roberto Bicelli, Sergio Cohn e Heyk Pimenta) + apresentação Paranóia (de Ana Bottosso, com Cia. de Danças de Diadema) – Onde: Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (avenida. Deputado Emílio Carlos, 3.641. Vila Nova Cachoeirinha). – Quando: dia 20/10 – Oficina:  14h, Debate – 16h e espetáculo – 18h.   – Fonte: Página do evento no Facebook

A saga da vanguarda poética paulistana

A busca pelo companheirismo sempre foi a urgência de muitos criadores e fez surgir movimentos artísticos e literários. A efervescência de determinada época, as coincidências e as amizades levam artistas ao convívio entre iguais e incrementa e, por vezes, até modifica o trabalho solitário de cada um deles. As reuniões no apartamento da escritora Gertrude Stein na rue de Fleurus, na rive Gauche em Paris na década de 20 reunia talentos do calibre de Picasso, Apollinaire e Jean Cocteau. A revista Cahiers du Cinéma na década de 60, também em Paris, juntava em sua redação diretores de cinema como Godard e Truffaut. Sem paralelos e exageros, isso aconteceu na Sampa entre as décadas de 60 e 80. No meio do regime repressivo brasileiro, São Paulo abrigava a vanguarda em várias searas artísticas. Na música com Arrigo Barnabé, Ira!, Itamar Assumpção, Titãs e Joelho de Porco. No teatro, com José Celso Martinez e Antunes. Nos quadrinhos, Angeli com seu Chiclete com Banana. E, na literatura, a turma dos ‘beats paulistanos’:  Roberto Piva, Cláudio Willer, Roberto Bicelli, Antonio Fernando de Francheschi, entre outros. Em belo trabalho de pesquisa (40 entrevistas entre 2007 e 2010), o livro Os Dentes da Memória, de Camila Hungria e Renata D’Elia, narra em formato de longa entrevista as histórias da vanguarda poética paulistana. Os excessos, os causos e os arroubos do grupo são contados principalmente com base nos relatos dos dois principais poetas dessa geração: Roberto Piva e Cláudio Willer. O intenso Roberto Piva exercia uma espécie de liderança anárquica no grupo. Verborrágico, vivia segundo seu lema: “eu digo que o verdadeiro poeta é marginal”. Cláudio Willer, mais centrado (dentro do possível), adota tom mais lúcido em suas lembranças. Willer foi o tradutor da obra que realmente fez a cabeça dessa geração, Cantos de Maldoror, o genial livro do enigmático poeta Lautréamont. Apesar da profunda admiração dos poetas do período pelos escritores beats norte-americanos, o uruguaio Lautréamont  traduziu como poucos a atmosfera dos sixties: “recebi a vida como uma ferida, e proibi ao suicídio que curasse a cicatriz.” O clima desses artistas pode ser experimentado pela leitura do manifesto Bules, bilis e bolas: “Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A vida não pode sucumbir ao torniquete da Consciência. A Vida explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes, patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a Liberdade.” No papel de agregador do desregrado movimento figura o editor Massao Ohno. Sua pequena editora publicou muitos primeiros livros de alguns escritores e poetas. Como ele próprio explica: “não se tratava de uma editora que modificasse as normas vigentes. Havia somente a necessidade de criar uma nova maneira de divulgar trabalhos pioneiros. Assim surgiu a Coleção dos Novíssimos, para publicar gente que desse um perfil próprio à sua época.”  Saiba mais sobre o editor Massao Ohno. Em plena ditadura militar, Roberto Piva polemizava com os poetas identificados como de esquerda e os poetas concretos. Piva também chegou a defender o anarco-monarquismo e, nos anos 90, a declarar apoio ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sem papas na língua, Piva comete heresias imperdoáveis aos esquerdistas empedernidos:: ” a esquerda foi mais repressiva que os militares. Eles tinham a hegemonia da intelectualidade…. flertei com todas as correntes que eram contrárias à ditadura. Mas você não precisava ser marxista para ir contra a ditadura.” O escritor João Silvério Trevisan resume bem o pensamento político de Piva: “o Piva se desdiz com certa frequência. Mais isso não quer dizer que ele seja incoerente. Sua maior coerência é justamente ter sido fiel à não separação entre poesia e vida. Essas falas e opiniões extremas são parte de uma irresponsabilidade criativa poética que ele próprio considera importante em si mesmo”. Willer ainda complementa sobre as contradições políticas do amigo: “em matéria de política. Piva sempre foi de uma oscilação notável.” Sempre mais comedido, Cláudio Willer se embrenhou na política cultural e exerceu cargos públicos a partir dos anos 80 como assessor do Ministério da Cultura e outros, além de ter ocupado por 4 mandatos a presidência da União Brasileira dos Escritores. Em 2010, a vida segundo Eros de Piva encontra Tânato em péssimas condições:  “aos 72 anos, tremendo e com alguma dificuldade para ler, estava cada vez mais difícil complementar o orçamento. Sem convênio médico, Piva contava com o SUS e com a ajuda de amigos para bancar seu tratamento”. Lembrei do triste fim de um dos maiores críticos literários desse país, Leo Gilson Ribeiro (que acompanhei bem de perto) e também precisou da ajuda de amigos nos seus últimos meses. A falta de grana maltrata até o fim quem se dedica de alma aberta à literatura no Brasil.  Visão de São Paulo à noite (trecho) (poema antropófago sob narcótico)   Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas acende velas no meu crânio há místicos falando bobagens ao coração das viúvas e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes chupando-se como raízes Maldoror em taças de maré alta na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida  a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas definitivamente fantásticas há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo a lua não se apóia em nada eu não me apóio em nada sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas teorias simples fervem minha mente enlouquecida… O homem-livro Massao Ohno