Coronavírus: o vírus e os trabalhadores

Quem está acostumado a ver filmes de tragédias biológicas de roliúde sabe qual é a fórmula da desgraça: governos corruptos, um maluco que fez a merda, milhões de pessoas morrendo, um pequeno grupo de heróis tentando salvar o mundo. Ao final, os heróis revertem a coisa, salvam seus entes queridos, salvam os governantes, mas os milhões que morreram parecem não ter qualquer importância e a vida segue normal com os que sobraram.

Agora, estamos vivendo como num desses filmes com o surto do novo vírus. E nada escapa do roteiro. É exatamente como na arte. Há uma parcela da população que simplesmente não importa pra ninguém. Ouvindo as orientações para a população logo se percebe que os médicos e governantes estão falando para um grupo bem específico de pessoas, excluindo A maioria.

Simón Rodríguez, educador venezuelano, já anunciava lá no começo do 1800 que aos latino-americanos era preciso inventar ou morrer. Pois é disso que se trata agora. O que essa parcela gigantesca de gente, que não tem qualquer possibilidade de proteção contra o vírus, precisa fazer para sobreviver? Há que inventar.

Eu gostaria de ver algum médico ou cientista dizendo a essas pessoas como reduzir os danos para não morrer na epidemia.

Há milhões de pessoas que seguirão tendo de ir ao trabalho nos ônibus e trens lotados? O que fazer?

Há milhares que precisarão trabalhar em espaços lotados de outros trabalhadores sem a possibilidade de ficarem dois metros de distância. Que fazer?

Milhares de pessoas ficarão infectadas em casas pequenas, apartamentos ou barracos  sem condições de manter a regras de isolamento. Que fazer?

Os pobres são os mais vulneráveis ao coronavírus (foto do Brasil de Fato)

Há centenas de moradores de rua, sem qualquer possibilidade de prevenção. Que fazer?

E se a pessoa cuida de um velho ou de uma criança e pega o vírus, não tendo com quem deixar a pessoa cuidada, que fazer?

Ou seja, é necessário que os médicos, governantes e cientistas encontrem respostas para essa gente que não se enquadra na lógica burguesa/classe média de lavar as mãozinhas, passar álcool gel e fazer isolamento social.

Por que não o fazem? Porque não importam. Esse é o ponto. Sendo assim, é mais do que necessário que nós mesmos comecemos a testar formas de proteção nessas condições adversas das quais não sairemos. E aí, talvez as redes nos ajudem, com um ajudando o outro nas suas invenções.

Nos espaços da produção capitalista alguns trabalhadores já estão dando o tom. Fábricas e empresas estão parando por decisão dos trabalhadores, que organizam paralisações e greves. Mas, e os serviços essenciais, que precisam ser feitos: o tratamento de água, a manutenção da energia, os trabalhadores da saúde e outros. Esses precisam se deslocar e estão a descoberto. Para eles temos de ter estratégias.

Não creio que elas venham do governo ou dos cientistas que se limitam a regras genéricas. Vejam que no Brasil o presidente da nação foi o primeiro a quebrar as regras da proteção, incentivando atos públicos e compartilhando secreções com centenas de pessoas na porta do palácio, numa irresponsabilidade que pode ser considerada crime de lesa-pátria.

Por isso que a proteção da massa abandonada tem de vir dela mesma. Que a gente possa compartilhar e se proteger. Porque não há ninguém por nós a não ser nós mesmos. Isso em tempos de epidemia como em qualquer tempo. Esses momentos dramáticos servem para nos fazer lembrar. A mudança do mundo está na nossa capacidade de inventar e caminhar juntos. Só a solidariedade entre os esquecidos pode nos salvar.

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