Maria José de Queiroz livros

Relatos sobre o amor extremo e seus avessos

O livro Amor cruel, amor vingador abre com um brevíssimo prefácio muito sábio e esclarecedor sobre o amor e os amantes, escrito como recado ao leitor à maneira de Machado de Assis. Nele, Maria José de Queiroz alerta: “Não há como negar: os trágicos gregos diagnosticaram todos os males da alma”. Aos expoentes da literatura e das ciências que vieram depois, nos séculos seguintes, ela destaca, citando Shakespeare, Dostoiévski, Flaubert, Zola e Freud, que apenas caberia a todos eles atualizar os sintomas, porque já estava feita desde a Antiguidade Clássica a primeira anamnese, o diagnóstico de nossas paixões e vícios.

Nas páginas seguintes, o leitor encontra cinco histórias curtas e requintadas, construídas com detalhes surpreendentes e reviravoltas que seduzem o paladar literário mais exigente, mas também agradam aos que buscam apenas a distração da leitura sobre tramas policiais e sobre crimes de resolução mais ou menos complicada. O que não há aqui, nas histórias de amor cruel, amor vingador, são os opostos maniqueistas que o leitor se acostumou a encontrar nos noticiários: do primeiro ao último relato, ninguém é completamente do bem ou do mal.

Compreender as variações dos tons de cinza e as motivações do heroi ou do vilão, dos culpados e dos inocentes, torna-se, então, um desafio saboroso diante de cada um dos enigmas que a autora apresenta nas cinco histórias reunidas no livro. Na primeira história do cardápio, a mais extensa, feita de frases curtas, de breves diálogos e de revelações que imprimem fôlego e ritmo rápido à leitura, a trama avança pelas variações de caráter e pelas motivações ocultas nos bastidores de uma investigação policial que aparentemente terá princípio, meio e fim.

Capa e contracapa do livro “Amor cruel, amor vingador” de Maria José de Queiroz (Reprodução)

A história é “O juramento”. Há um crime: o assassinato de uma viúva endinheirada; e há Pedroso, o detetive que investiga o caso, confiante no princípio de que entre a pobreza e a criminalidade não existe relação de causa e efeito. Assim como acontece nos clássicos da literatura policial, o investigador carrega seus dramas do passado, enquanto descobre as pistas e os percalços dos envolvidos. E não faltam surpresas. No desfecho, nem tudo o que reluz é ouro, mas ainda restará a sombra de uma dúvida sobre quem seria o verdadeiro culpado – dúvida que o leitor compartilha e confirma.

Em “Velho com moça nova”, a segunda história, a trama tem toques de humor picaresco para contar o caso de um matuto, Antônio, envolvido a contragosto em um enredo de traição e morte. O caso começa com o protagonista a lembrar os conselhos do pai, que soavam como sina anunciada ou confissão de culpa: “Nunca pare nem aceite pousada em casa de velho com mulher moça”. Na aventura do matuto, desrespeitar o conselho foi como cair no redemoinho – ou como desafiar por acidente o anjo Gabriel com a balança do Juízo Final.

A terceira história ganha pontos já a partir do título – “Iniciação ao tratado do desespero”. Entra em cena um triângulo amoroso, uma mulher e dois homens, os três jovens universitários, com a voz feminina narrando a trama entre aventuras ingênuas, algumas referências de filosofia e o tempo que passou rápido e dissolveu em definitivo a aproximação entre os três. O desfecho trágico vem através da carta de uma desconhecida, revelando uma estranha coincidência e a oportunidade para um pequeno e passageiro desespero.

O trágico surge novamente com toques involuntários de humor em “Ritinha Chiquê ou A hora do carvoeiro”, a quarta história, com o caso amargo da beata que acaba seduzindo um trabalhador braçal e, em seguida, mergulha nas águas turvas e movediças da crueldade e da vingança.

Na quinta e última história do livro, “A morte ao pé da letra”, o desfecho trágico é precedido pela calmaria e por promessas de felicidade em 1970 na Sorbonne, mas algo de patológico dos males da alma se instala na trama a partir da recriação de uma figura da mitologia grega, a “Antígona”, de Sófocles, e retornamos aos rompantes do amor e seus avessos. Como disse o tabelião ao detetive, ao comentar sobre a vida do principal suspeito, nas investigações de “O juramento”: “Vícios, quem não os tem?”

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A escritora Maria José de Queiroz

Esta nova edição de Amor cruel, amor vingador vem suprir uma lacuna na extensa obra teórica, poética e ficcional publicada por Maria José de Queiroz, mineira de Belo Horizonte que completou recentemente cinco décadas na Academia Mineira de Letras. O livro teve uma primeira publicação pela Record na década de 1990, mas estava há anos fora de catálogo e inacessível, retornando agora em lançamento da Caravana Grupo Editorial.

A prosa sofisticada que volta em nova edição tem ainda o mérito de contrariar aquele lugar comum de que não se deve julgar um livro pela capa. O detalhe de “Ghismunda”, pintura barroca do século 17 do italiano Bernardino Mei, escolhido para ilustrar a nova capa, consegue traduzir à perfeição as tramas do amor cruel e vingador que, nas mais variadas e corriqueiras situações, transformam em vítimas os amantes. 

“Amor cruel, amor vingador”, de Maria José de Queiroz. Lançamento Caravana Grupo Editorial, 122 páginas.

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O livro Amor cruel, amor vingador abre com um brevíssimo prefácio muito sábio e esclarecedor sobre o amor e os amantes, escrito como um recado ao leitor, à maneira de Machado de Assis. Nele, Maria José de Queiroz alerta: “Não há como negar: os trágicos gregos diagnosticaram todos os males da alma”
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