Zona Curva

#ocupaescola

Por que ocupar a universidade?

por Elaine Tavares A mídia comercial não diz, mas são mais de 180 universidades ocupadas no Brasil. Isso, por si só, já é uma notícia estarrecedora. Ainda assim, nem o Fantástico, nem os programas da Record ou da Band discutem o tema. Nenhuma novidade. A mídia corporativa é o braço ideológico armado do sistema. E ao sistema interessa que a opinião pública não seja informada das coisas que acontecem e que podem fazer estremecer o mundo tão organizado para a domesticação. Mas, como sempre, todos esses meios haverão de ser engolidos pela realidade. Pois, ainda que a mídia não mostre, a vida está acontecendo e as pessoas veem. Pois as universidades estão ocupadas e não é por professores ou técnicos em greve. Não. São os estudantes. Empurrados pelas demandas e lutas dos secundaristas, que decidiram ocupar escolas para salvá-las, os universitários perceberam que era também chegada sua hora. Então, começaram a ocupar também. Não para salvar, mas para transformar. Afinal, como bem diz Álvaro Vieira Pinto, é preciso fazer com que a universidade deixe de ser “um centro distribuidor de alienação cultural para convertê-la no mais eficaz instrumento de criação da nova consciência estudantil, direta e exclusivamente interessada em modificar a estrutura social antiga e injusta, substituindo-a por outra humana e livre”. Quando Álvaro escreveu seu texto seminal “A questão da universidade”, essa era mesmo a casa da elite brasileira, espaço praticamente vetado para a classe trabalhadora. E era, sem questionamentos internos, o instrumento mais eficaz da classe dominante para assegurar o comando ideológico. As ideias produzidas na universidade ali estavam para justificar o poderio do pequeno grupo que sempre mandou no país. De costas para a realidade brasileira, os jovens aprendiam profissões e de lá saíam incapazes de dar respostas às demandas concretas de um país dependente e subdesenvolvido.  Europeizados, elitizados, alienados. O tempo passou, veio a ditadura, a democratização e a universidade seguiu igual. Usina ideológica do sistema dominante. E tanto que os poucos jovens da classe trabalhadora que conseguiam entrar, através do injusto e excludente vestibular, no mais das vezes vão se “convertendo” e incorporando o mesmo modo de ser dos seus algozes, essa classe “ociosa e aproveitadora, cujo intuito é reprimir a ascensão das massas”. Com a vitória de um governo mais próximo dos trabalhadores em 2003, a esperança da construção de universidade popular, visceralmente ligada aos interesses da maioria, renasceu.  E vieram mudanças. Incompletas, inconclusas, insuficientes, mas vieram. Houve a vitória das cotas para negros, índios e alunos de escola pública, novas formas de ingresso na universidade, novas universidades. O número de pessoas da classe trabalhadora que conseguiu entrar para uma instituição de ensino superior cresceu bastante.  Em 2004, os mais ricos representavam 55% nas universidades públicas e 68% nas privadas. Em 2013, os mais ricos eram apenas 38% nas públicas e 43% nas privadas. Os negros saltaram de 16% em 2004 para 45% em 2013. São dados importantes, mas não redundaram em mudanças no perfil da universidade. Os currículos seguiram os mesmos, a lógica seguiu a mesma, e o perfil colonizado, de costas para a realidade, não sofreu alteração. A ideologia burguesa seguiu dominando, tanto no professorado quanto nos técnicos. Aos empobrecidos, coube gastar seu tempo lutando para permanecer, o que tirou bastante a capacidade de apontar mudanças. Muitos foram sendo cooptados e a universidade seguiu tão reacionária e conservadora como sempre. Agora a vida lá fora está ululando. Veio um golpe, “brando e de outro cariz”, mas, não se enganem. Golpe. Golpe contra a classe trabalhadora. E as primeiras ações de caráter reformista/neoliberal libertaram as forças da reação. E elas vieram de onde menos se esperava. Daqueles que sempre foram acusados de não “quererem nada com o peixe”, os estudantes secundaristas das escolas públicas, meninos e meninas da periferia. Quando todos os estudos se voltavam para a violência nas escolas, a impossibilidade de ensinar, a falta de disciplina dos alunos, eles se levantam, como uma vaga tsunâmica, com um único discurso: queremos estudar e nas nossas escolas. Mais uma prova de que a universidade estava de costas para a realidade. Como os “pesquisadores” não se deram conta da vontade de educação dessa gurizada? Como não viram seus olhos cheios de desejo de aprender? Como não compreenderam que a “violência” era um grito de protesto contra uma pedagogia rota e atrasada? Os secundaristas, sabendo que nada tinham a perder, ousaram a luta mais dura, contra o estado e contra todos os “papers” financiados pela Capes. Ocuparam as escolas, viraram a mesa, apontaram novos caminhos, enfrentaram a polícia. Mostraram na luta renhida que querem fazer parte da mesa principal do banquete educativo. Nada de educação bancária, de segunda categoria, para formar mão-de-obra. Querem educação amorosa, comprometida com a realidade. E foi essa lição ensinada pelos meninos e meninas das escolas públicas que chegou à universidade. De alguma maneira tocou algum espaço secreto no cérebro dos universitários formatados pela ideologia da classe dominante. E havia só um caminho. Parar tudo, repensar as práticas, discutir o ensino universitário que forma os professores dessa gurizada. Professores cegos. Assim, a vida urgente que se expressa fora dos muros universitários atingiu como um raio aqueles que ainda podem ver. Os que ainda se importam. Então, a disputa por outro modo de ser no mundo contaminou a universidade. Bem dizia Álvaro Vieira Pinto: estudante não é só pra estudar. Estudantes têm de estar afinados com a arena política, com as causas nacionais. A educação só tem sentido se for para mudar as coisas. Estudar também é um ato social.  A realidade brasileira exige de todas as pessoas o engajamento na luta pela mudança.  E os estudantes saem na frente. As ocupações nas universidades são esse movimento de transformação, de despertar. A esperança é que ultrapassem as demandas particularistas e consigam perceber o cerne do problema: a universidade precisa mudar na essência. Ele tem de ter uma finalidade política que é a de superar o colonialismo mental, compreender o processo de dependência, e construir caminhos de transformação. Ou isso, ou nada. Os estudantes já mudaram a temperatura do mundo

As escolas, os estudantes e a flor

por Elaine Tavares Uma das táticas infalíveis do processo de produção de consenso é a repetição contínua e sistemática de mentiras. São tantas vezes ditas que viram verdades. Nelas, também é bastante comum as coisas trocarem de lugar. A vítima vira o vilão. É batata! Assim tem sido com os estudantes que ocupam escolas. De repente, aqueles garotos e garotas, que se aborreciam nas salas de aula, decidiram tomar o presente à unha. E diante de uma proposta que os governantes chamaram de “reestruturação” resolveram se levantar. A gurizada não é burra. Logo se deu conta que a reestruturação queria dizer destruição. Na época, o governo paulista, de Geraldo Alkmin (PSDB) decidiu fechar escolas onde achava que não eram “rentáveis”. Como se uma escola tivesse de ser lucrativa. A gurizada teria de sair do seu bairro, viajar quilômetros para chegar noutra escola, com salas de aula ainda mais cheias, com professores massacrados e mal pagos. Então, não houve dúvidas. Começaram a ocupar suas escolas para impedir que fossem fechadas. Que crime é esse? Um guri, uma guria, fincar pé na sua escola, porque que quer aprender, conhecer, se instruir, isso é irregular? As ocupações em São Paulo, em Goiás, no Rio Grande do Sul, em Minas, mostraram que algo estava acontecendo, e que era grave. Naqueles dias, o assunto foi parar na mídia e até certo ponto os estudantes foram respeitados na sua luta. Depois, quando o processo se espalhou, a classe dominante viu que era preciso parar com a “brincadeira”. Veio então a ordem para desocupar com a força policial. E todo o Brasil acompanhou a retirada da gurizada, com a velha violência de sempre. A coisa parecia superada. Com a consolidação do golpe parlamentar, as forças conservadoras, que já arreganhavam os dentes desde 2013, assomaram, ganharam musculatura, se fortaleceram e começaram a impor suas pautas ao país. Veio então a reforma do ensino médio, assim, por decreto, sem sequer passar pelo legislativo. Acabava com a obrigatoriedade do ensino de matérias universalistas, fundamentais para a formação de um pensamento crítico: sociologia, filosofia, artes. Nada disso na escola pública. Essas cadeiras que fazem pensar só nas escolas privadas, onde se forma a classe dominante. De novo o velho refrão: “Pobre tem de ficar no seu lugar”. Ana Julia Ribeiro, estudante secundarista, em discurso no dia 26 de outubro na Assembleia Legislativa do Paraná: Então, a gurizada se levantou outra vez. E os secundaristas voltaram à tática de ocupar escolas. Porque ali é o lugar onde passam grande parte do seu tempo, no mais das vezes, tentando, com muito esforço, manter a cabeça de fora do poço de mediocridade e superficialidade que o ensino formal no geral propicia. Poucos professores conseguem garantir uma aula crítica, cheia de motivação. Afinal, a maioria deles precisa correr de uma escola a outra, dando dezenas de aulas, para garantir um salário mais ou menos capaz de suprir suas necessidades vitais. Ainda assim, por conta da bravura e do compromisso político com os alunos, boa parte dos educadores supera as dificuldades e rema contra todas as forças do atraso. Os alunos sabem disso. Reconhecem os que lutam. Não é sem razão que quando tem greve, apoiam e lutam junto. E os alunos apoiam as greves, quando as aulas param, porque sabem que param para que possam continuar. Para que possam melhorar. E quando a mídia e os governos gritam que os professores são vagabundos porque saíram da escola, porque pararam as aulas, os alunos sabem que não é assim. Porque estão ali, cotidianamente, vendo o esforço que fazem para garantir um ensino de qualidade na escola pública. Por isso que agora, quando esse ensino sofre outro ataque – além da já tradicional exploração do professor – os estudantes insistem em se manter na escola. Dentro dela. Para que essa escola siga aberta, para que continue resistindo no mar das dificuldades, preparando as cabeças para o enfrentamento da vida. O levante dos secundaristas brasileiros na defesa da educação é de uma riqueza sem par. Não é uma luta pontual. É constituída pela universalidade do problema educativo. Questiona tudo: as leis, os cortes de verba, o sumiço das matérias de humanidades e a própria forma de ensinar. Há uma coisa incrível aí nessas ocupações que vai contra tudo o que se diz do jovem do século XXI. “Só querem fumar maconha e ficar na internet”, insistem em dizer os governantes sem moral e ética. Pois o concreto da luta desmente cabalmente essa falsa informação. Os secundaristas querem a escola, querem estudar, e querem que tudo isso aconteça de uma forma diferente da educação bancária reservada para os pobres. Os secundaristas estão abrindo portas e janelas, deixando entrar o ar do novo século. Eles ensinam sobre essa nova escola, que tem de ser livre, participativa, motivadora, humana, cooperativa, solidária. Quem tem olhos para ver, que veja. O fato é que os levantes dos estudantes, independentemente do que venha acontecer, com toda a truculência que está deflagrada, já venceu. Ele é igual a flor do poema de Drummond: “Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor”. Podem vir as bombas, os cassetetes, os fuzis, as prisões. Pode vir o que for. Já era. Nasceu, e é uma flor. Ainda que tudo se acabe, ainda que as escolas sejam retomadas e invadidas pelos ladrões de futuro, pelos vilões do amor, a lição já terá sido aprendida. Os estudantes mostram, com essas ocupações, que a escola pode ser boa, bonita e capaz de formar seres cheios de beleza e conhecimento transformador. Não tem retorno. O estopim foi aceso e não há como parar. O projeto de escola de hoje para frente tem de ser outro. E vai ser, a despeito

Secundaristas inventam uma nova escola

por Elaine Tavares Pouca coisa tem sido divulgada dessa encantadora revolução educacional que vem se verificando em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, onde estudantes estão ocupando as escolas em luta contra as propostas de fechamento, roubos de merenda e por condições melhores de funcionamento. Como sempre acontece, o que é uma batalha particular, acaba crescendo e escapando dos objetivos primeiros. Hoje, os secundaristas desses estados – experimentados no embate com o governo – começam a perceber que há algo muito errado na forma como a educação é apresentada e oferecida. Outro dia, numa rede social, li o depoimento de um professor sobre um garoto chamado Matheus. Ele dizia que Matheus era um “problema” na escola e que todos os seus colegas falavam dele como uma espécie de caso perdido. Não estudava, não se comportava, não queria saber das aulas. Pois com a ocupação, eles passaram a conhecer um outro guri, que participava, que vinha para a escola fora do horário, que limpava, que cozinhava, que encontrava naquele espaço ocupado uma razão para viver. Ou seja, a escola de antes não podia ser amada. Essa, ocupada, em luta, sim. Matheus mostra uma verdade radical: a escola é ruim. O jeito como ela se estrutura não fomenta desejos e amores. Mas, uma escola ocupada, conduzida pelos estudantes, ela suscita paixão. Há debates, polêmicas, cantoria, risos, trabalho, alegria, discussão, embates. Uma escola assim a gurizada defende, ama e abraça. Uma escola na qual as relações são afetivas, humanas, e o conhecimento não é fragmentado, as possibilidades do conhecimento são infinitas, apaixonantes. E os jovens querem mudar a escola, e o estão fazendo. Em São Paulo, por exemplo, onde ocorreu o roubo da merenda escolar, o processo vai se radicalizando ainda mais. Nessa semana os estudantes ocuparam a Assembleia Legislativa de São Paulo exigindo investigação e punição dos ladrões da merenda. Há uma CPI em andamento, mas tudo segue muito lento e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se faz de mosca morta, sendo ele um dos principais acusados. No Rio de Janeiro já são mais de 60 escolas ocupadas, com os estudantes exigindo melhorias na estrutura e no formato da educação. Todo o aparato repressivo tem sido utilizado pelos governos para quebrar a força dos secundaristas. Tudo em vão. A cada ação da polícia, mais cresce o movimento. É como uma onda que vai tomando corpo, disposta a formar um tsunami. Na mídia comercial pouco se fala dessa transformação radical que está sendo feita cotidianamente pelos estudantes. Uma ou outra matéria fragmentada, obviamente mostrando a gurizada como baderneira e irresponsável. Cria um consenso no qual a luta aparece como bravata de uns poucos “desocupados”. Mas, enquanto os cães de guarda do poder vomitam discursos de ódio, esses jovens secundaristas estão amalgamando uma nova forma de viver a educação. Se o governo corta a luz, eles acendem velas, se o governo corta a água, os parentes e amigos levam os baldes cheios, se o governo manda a polícia eles enfrentam e resistem. É uma coisa linda o que está acontecendo. Um movimento de amor, de ternura, de compromisso, construído por uma juventude frequentemente acusada de “alienada”, “fútil”, “vazia”. Acampados, entrincheirados, acomunados, eles vão abrindo caminhos que haverão de se descortinar em maravilhas. É preciso que o Brasil olhe com muito cuidado para essas carinhas sorridentes que aparecem do outro lado das grades dos portões escolares. Porque eles estão escrevendo a história. Nenhuma dessas escolas ocupadas pelos estudantes sairá ilesa desse processo. As coisas irão mudar radicalmente. Pode até ser que não agora, mas fatalmente acontecerá. Porque é assim que se produz a caminhada humana. Ações singulares ou particulares que, num repente, tomam a dimensão universal. As escolas terão de mudar, porque a gurizada quer estudar, quer conhecer, quer compreender o mundo. E a luta que hoje estão fazendo fatalmente terá frutos. Essa batalha bonita vai também mudar as pessoas. E não só os estudantes. Mudarão os pais, os tios, os avós, os parentes todos, os amigos. Cada guri, cada guria que tenha vivido essa experiência saberá que as coisas na escola podem ser bonitas, instigantes, surpreendentes, apaixonantes, e isso vai transformar o cotidiano. Talvez a mudança não aconteça, assim, de inopino, hoje, na semana que vem. Mas, a história nos mostra: ela virá. A pedagogia das ocupações está forjando uma nova escola, uma nova educação. Dá para sentir as paredes ruindo. E esses meninos e meninas que resistem nas escolas são os artífices de tudo isso. Que a história dê a eles o lugar que merecem! Ao abraçarem suas escolas com tamanha paixão, eles fazem uma declaração de amor universal e mudam o mundo inteiro. Com eles, caminhamos! Publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes.

E se fosse numa escola particular

 por Fernando do Valle Agora fica mais cristalino que a água (ops!) o motivo que leva parte da classe média a posar orgulhosa em selfies com a tropa de choque alckimista. Naquele momento, as forças policiais recebiam seu voto de confiança para prosseguirem seu trabalho de colocar “em seu devido lugar” a juventude pobre. Poucos meses depois das constrangedoras fotos, a PM retribui o apoio. A extrema violência da repressão policial aos protestos dos estudantes das escolas públicas que lutam contra o fechamento de 94 escolas estaduais pelo governador mostra que o diálogo com os estudantes mais pobres é na base do cassetete. Nas fotos e vídeos que circulam pelas redes sociais nestes dias não há espaço para o sorriso fake de uma selfie. Tentei explicar pra minha filha de 9 anos o que acontecia enquanto assistíamos um vídeo em que policiais militares prendiam com violência estudantes no pátio de uma escola, ela me perguntou: “pai, eles podem fazer isso na minha escola também?”. Respondi que não e fiz esforço hercúleo para esclarecer os motivos que a protegiam desse tratamento desumano da polícia, não sei se ela entendeu. Aquela pergunta me persegue há dois dias e imaginei um hipotético e improvável cenário em que os alunos de uma escola particular de um bairro considerado nobre ocupem a escola em protesto contra a diretora que não tomou nenhuma providência após um acidente grave de trânsito com um aluno em frente à escola. Irmã de um delegado, a diretora desesperada liga 190 e a PM invade sem mandado o estabelecimento particular. Seria mais ou menos assim: Pietra foi presa hoje pela manhã, em estado de choque, sua mãe já esvaziou duas cartelas de calmante tarja preta. Um advogado que estudou na mesma escola do pai da adolescente a soltou prontamente. Para se recuperar do trauma, em janeiro, Pietra embarca para um intercâmbio no Canadá para aprimorar seu inglês. Leonardo tentou impedir a entrada da PM na escola, foi enforcado pelo cassetete de um PM enraivecido e ficou com dois hematomas no rosto, mesmo com 15 anos, seu pai o levou ao pediatra que o atende desde que nasceu, “você sabe como é médico de convênio”, sua mãe escreveu para uma amiga pelo celular depois que deixou um cheque-borracha de R$ 450 pela consulta. O pai de Fred adora publicar memes contra a “corrupissão” no face, nos protestos de março e abril na Paulista, tirou selfies com a tropa de choque com a hashtag #vemprarua. Achou melhor Fred ficar em casa no dia da invasão quando soube da movimentação dos estudantes no dia anterior. Quando chegou do trabalho e Fred contou sobre a invasão da escola pela polícia, ele ligou para seu primo juiz e exigiu providências: “você tem que mexer os pauzinhos, o que aconteceu foi muito grave!” Catarina ficou assustada com a violência da PM e perguntou antes de dormir pra avó os motivos de tanta raiva no olhar de um soldado. Sua avó respondeu: “é que o Brasil é muito violento, minha neta, e se eles não fizerem nada, isso vira uma bagunça”. Catarina não entendeu. No dia após a invasão, o governador convocou a imprensa para uma coletiva para comunicar a demissão de seu secretário de segurança e do comandante da PM. Hoje pela manhã, pais, alunos, professores fecharam a avenida em frente da escola em uma passeata contra a violência. A PM não deu as caras, pelo jeito, não ia rolar selfie.

#Ocupaescola: A lição da juventude paulista

por Elaine Tavares #Ocupaescola – Paulo Freire já dizia: o mestre é aquele que, de repente, aprende. E é esse homem lindo que me vem à mente ao acompanhar as notícias das escolas ocupadas em São Paulo. Quando a máquina de ideologia – que são os meios de comunicação – transmitem, à exaustão, informações sobre o colapso da educação, sobre a violência nas escolas, alardeando que os jovens não querem nada com nada, vem essa gurizada a mostrar que isso não é verdade. Eis aí um fato que precisa ser compreendido na sua mais ampla dimensão. Por que raios essa gurizada está ocupando as escolas, contra a proposta de fechamento e reestruturação do governo paulista? O que nos dizem esses guris e gurias, abraçando e protegendo velhos prédios carcomidos pela incompetência governamental? Que estupenda lição oferecem esses jovens aos “especialistas” que arrotam verdades sobre eles? Marx já nos alertou desde há séculos que é preciso auscultar a realidade e que é da história mesma que brotam as ideias que, então, passam a comandar a vida. Então é hora de olhar a vida. Não existe colapso na educação, o que existe é a deliberada ação de não oferecer aos alunos do primeiro e segundo graus um ensino de qualidade. E como se faz isso? Simples. Começa-se pelo abandono das estruturas. As escolas vão se desmilinguindo, ficando feias, com tudo caindo. Não há cores, não há flores, não há beleza, os ambientes vão se parecendo com prisões. Depois, paga-se mal aos professores e eles precisam se virar nos trinta, dando quinhentas aulas para conseguir uma renda capaz de sustentá-los com um mínimo de dignidade. E o que pode ensinar um professor esgotado, cansado, estressado? Por fim, cria-se um plano de educação que não respeita os anseios das gentes, construído em salas fechadas, por especialistas ou tecnocratas que não conhecem a vida real, abarrotado de preconceitos e verdades cristalizadas. Então, juntando tudo isso, as escolas vão ficando cada dia mais tristes, parecendo um depósito de gente, um lugar onde o riso é punido, a brincadeira é vista como um problema, e a afetividade passa longe. Não é possível criar um ambiente amoroso – como queria Paulo Freire – se não são dadas as condições materiais para isso.  Lembrem, a realidade vem primeiro que a ideia. Aí vem o governo paulista  – e não é só ele, em Santa Catarina também – falar em reestruturação, que nada mais é do que adequar o sistema de ensino aos interesses econômicos. Fechar escolas para baixar custos, baseado em números, estatísticas, planilhas. Pouco importa se o fechamento vai tirar o guri e a guria do seu bairro, ou vai desfazer um vínculo afetivo. Dane-se isso. Dane-se Paulo Freire, “aquele comunista”. Pois quando o estado – baseado na algaravia conservadora de que a juventude não está nem aí para nada – decide mexer nesse já miserável quadro do ensino público, vem a realidade e o confronta. Os jovens pegam suas tralhas, seus cadernos surrados, seus telefones espertos comprados nos camelôs, colchões velhos, seu entusiasmo, seus sonhos, e ocupam a escola. Diante da polícia, das armas, das botinas, dos cassetetes eles colocam seus corpos ainda em formação, frágeis, mas resolutos. Aquele lugar em escombros ainda é o único espaço que eles encontram para minimamente burlar o perverso sistema que só os quer minimamente capazes para fazer girar a máquina. Os secundas de São Paulo protegem a escola com seus corpos. Pode haver lição maior? Eles dizem não ao projeto de desmonte, ao descaso, ao desamor, ao golpe do capital. Eles apontam um horizonte de belezas. Sabem que aquilo que ali está – a escola, o programa – ainda não é suficiente, têm consciência do que está por trás do desmonte, do fechamento, dos baixos salários dos professores, e exigem mudanças. A escola que eles estão defendendo é o espaço do saber, o saber que é sabor, gosto bom. A escola de Simón Rodríguez, de Paulo Freire, de José Martí. A escola que forma para a vida, que promove a solidariedade, o afeto, a cooperação. Uma escola que é real, mas que não existe ainda por conta da habilidade de quem governa. Porque uma escola assim é sementeira de transformação. O que os governos não sabem é que essa escola que eles plasmam com seus planos de ensino engessados e baixos salários – ineficiente, escura, conservadora – não é o único espaço por onde transita a criança e o adolescente. Eles caminham pelo bairro, andam de ônibus, enfrentam a violência, a miséria, a falta de interesse dos adultos. Eles são capazes de fazer as ligações e compreender o mundo que se mostra cotidianamente. E, assim, podem transcender às marteladas ideológicas da mídia, dos governos, dos adultos empedrados e conservadores. A pedagogia das ocupações em São Paulo é libertária e transformadora. Essa escola que os secundas estão construindo com seus corpos, suas danças, canções e sorrisos é a escola necessária. Mas, não esperemos que os governos os compreendam e os aceitem. O estado vai combater essa escola e esses jovens até o mais amargo fim, assim como combate e pune os professores que se insurgem contra a lógica bancária e mercantilista da educação. É uma queda de braço. É a luta de classe. E, aconteça o que acontecer, essa gurizada já venceu. Porque essa experiência pedagógica vivida, esse fazer o próprio caminho não será esquecido por milhares de jovens. Isso viverá para sempre forjando espírito e corpo para novas batalhas, para além da escola. O humano sempre escapa à escravidão. Essa é uma lição que os dominadores parecem não entender. Os quilombos são parte constitutiva do que somos, e seguirão existindo. Terras livres, de negros, de crianças, de mulheres, de índios, de velhos, de todos aqueles que, incapazes de aceitar o garrote, se levantam e andam. As escolas ocupadas de São Paulo fervem de vida, de luta, de alegria, de amor. Isso é educação! Texto publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes.

Rolar para cima