O nosso eterno Festival de besteira que assola o país

Basta um breve passeio pelos jornais, twitter ou facebook, para constatar que o FEBEAPÁ (Festival de Besteira que assola o país) continua mais ativo do que nunca. O festival foi criado por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do escritor e jornalista Sérgio Porto.

Escritos por Stanislaw Ponte Preta, os três volumes do FEBEAPÁ foram publicados entre 1964 e 1968 e atacavam em forma de ácidas crônicas à ditadura militar. Garanto que o ilustre Stanislaw viria a concordar que o festival de sandices não é de uso privativo de regimes de exceção. Nas últimas décadas, o cronista teria volumosa matéria-prima para rechear as páginas de livros e mais livros de FEBEAPÁ.

Sérgio Porto não brincava em serviço
Sérgio Porto não brincava em serviço

Caso em que a criatura ficou mais popular que o criador, Stanislaw ironizou os primeiros anos do regime dos generais. Porto morreu, com apenas 45 anos, de um fulminante ataque cardíaco em 30 de setembro de 1968, cerca de dois meses antes da decretação do tenebroso AI-5. O próprio Stanislaw Ponte Preta explica melhor seu FEBEAPÁ (a ‘redentora’ do texto era o codinome do golpe militar):

“É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da “redentora”, cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem “otoridades”, sentindo a oportunidade de aparecer, já que a “redentora”, entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela do dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo – alguns apontavam dois dedos duros, para ambas as coisas), iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar” (Febeapá 1, p.5)

O carioca Sérgio Porto iniciou sua carreira jornalística como crítico de cinema no Jornal do Povo, de propriedade do Barão de Itararé (pseudônimo do jornalista Aparício Torelly) nos anos 50. Foi também cronista esportivo, repórter policial, além de ter trabalhado na televisão e no rádio. De alguma forma, há parentesco entre o trabalho de Stanislaw e o do ‘nobre cronista’de sangue azul’.

Saiba mais sobre o impagável Barão de Itararé

Sérgio Porto com suas três filhas (crédito: livro O melhor do Pasquim, volume 1, editora Desiderata, 2006)
Sérgio Porto com suas três filhas (crédito: livro O melhor do Pasquim, volume 1, editora Desiderata, 2006)

 

Frases de Stanislaw Ponte Preta 

“O sol nasce para todos. A sombra para quem é mais esperto”

“Se mosquito fosse malandro, mordia antes e zunia depois”

Tirando a própria mulher, a gente deve recomendar tudo aquilo que experimentou e gostou

“Mais inútil do que um vice-presidente”

“Basta ler meia página do livro de certos escritores, para perceber que eles estão despontando para o anonimato”

O mal do Brasil é ter sido descoberto por estrangeiros” (Deputado Índio do Brasil, Assembleia do Rio)”.

 

Os personagens de Stanislaw

Sérgio Porto criou Stanislaw Ponte Preta quando escrevia para o Diário Carioca, em 1951. Mas, foi em 1955, no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, que segundo o amigo Paulo Mendes Campos, “ficou famoso de um mês para o outro”. No jornal de Wainer, Porto criou uma galeria de personagens: Tia Zulmira, Primo Altamarindo, Rosamundo, o superdistraído, entre outros.

Sérgio Porto, em entrevista ao Pasquim, explica sua relação ‘esquizofrênica’ com Stanislaw:

“De fato, Stanislaw foi criado junto comigo e, praticamente, é meu irmão de criação. Moramos na mesma casa, tivemos a mesma infância e muitas vezes comemos do mesmo prato. Hoje, no entanto, embora vivendo ambos do jornalismo, já não somos ligados; raramente nos vemos, poucos são os nossos gostos comuns e acredito que seria uma temeridade da minha parte se continuasse companheiro fraterno do irriquieto autor”

O também cronista Paulo Mendes desvenda Tia Zulmira e Primo Altamarindo (vale a pena ler o texto em que Paulo relembra o amigo no blog do Instituto Moreira Salles):

Tia Zulmira é uma dessas criaturas que acontecem: saiu de Vila Isabel, onde nasceu, por não achar nada bonito o monumento a Noel Rosa. Passou anos e anos em Paris, dividindo quase o seu tempo entre o Follies Bergère, onde era vedete, e a Sorbonne, onde era um crânio. Casou-se várias vezes, deslumbrou a Europa, foi correspondente do Times na Jamaica, colaborou com Madame Curie, brigou nos áureos tempos com Darwin, por causa de um macaco, ensinou dança a Nijinski, relatividade a Einstein, psicanálise a Freud, automobilismo ao argentino Fangio, tourear a Dominguín, cinema a Chaplin, e deu algumas dicas para o doutor Salk. Vivia, já velha mas sempre sapiente, num casarão da Boca do Mato, fazendo pastéis que um sobrinho vendia na estação do Méier. Não tinha papas na língua e, entre muitas outras coisas, detestava mulher gorda em garupa de lambreta.

Primo Altamirando também ficou logo famoso em todo o Brasil. O nefando nasceu num ano tão diferente que nele o São Cristóvão foi campeão carioca (1926). Ainda de fraldas praticou todas as maldades que as crianças costumam fazer dos 10 aos 15 anos, como, por exemplo, botar o canarinho belga no liquidificador: foi expulso da escola primária ao ser apanhado falando muito mal de São Francisco de Assis. Pioneiro de plantação de maconha do Rio. Vivendo do dinheiro de algumas velhotas, inimigo de todos os códigos, considerava-se um homem realizado. E, ao saber de pesquisas no campo da fecundação em laboratório, dizia: “Por mais eficaz que seja o método novo de fazer criança, a turma jamais abandonará o antigo.”

 

A culpa do Pasquim é toda do Stanislaw

O cartunista Jaguar, que ilustrou as crônicas de Stanislaw Ponte Preta, conta como Sérgio Porto inspirou a criação do Pasquim:

 “o embrião do Pasquim  foi gerado em setembro de 1968, no dia em que morreu Sérgio Porto, sobejamente conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Ele era responsável pela Carapuça, tabloide semanal de humor. Na verdade, o jornaleco poderia continuar indo para as bancas. O autor dos textos, de cabo a rabo, era Alberto Eça, que conseguia fazer uma imitação razoável do jeito de escrever do fero cronista. O pessoal do ramo sabia que o estilo de Stan era inimitável, mas dava para engabelar a plebe ignara… Mas como explicar aos leitores?… Tarso [de Castro] encontrou-se comigo no Jangadeiros [bar carioca] e quis saber minha opinião. “Melhor fechar e abrir outro jornal”, sugeri” (fonte livro O melhor do Pasquim, volume 1, editora Desiderata, 2006)

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Sérgio Porto também foi compositor do Samba do Crioulo Doido. Escute a música com a Escola de Samba Unidos de Padre Miguel:

O romance de Sérgio Porto, As Cariocas (1967), virou filme pelas mãos de três diretores: Fernando de Barros, Walter Hugo Khouri e Roberto Santos . Aí vai um trecho com a atriz Íris Bruzzi, que chegou a ser uma das certinhas do Lalau (mulheres escolhidas por Sérgio Porto para sua coluna no jornal Última Hora):

Fontes usadas:  livro O melhor do Pasquim, volume 1, editora Desiderata, 2006; artigo acadêmico “E foi proclamada a escravidão”: Stanislaw Ponte Preta e a representação satírica do golpe militar, de Dislane Zerbinatti Moraes, Meu amigo Sérgio Porto, de Paulo Mendes Campos.

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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